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A CIÊNCIA NA EXPOSIÇÃO DO MUNDO PORTUGUÊS

RESPOSTA DE MARIA ESTELA GUEDES A XPTO

Caro XPTO -

Em resposta à sua carta, tocarei apenas em três pontos, deixando de lado a questão da sinonímia. Já J.A. Serra, no seu relatório (1), comenta que a nomenclatura no Museu estava desactualizada. De outra parte, se na Exposição do Mundo Português estavam representantes de espécies atribuídas à fauna de Cabo Verde, quando tais espécies não estão catalogadas para Cabo Verde, esse é justamente um dos problemas que eu levanto. XPTO apenas confirma o que eu escrevi: nenhum catálogo que eu conheça inclui o cuco esmeraldino (Chrysococcyx cupreus, ossobó) na avifauna caboverdiana, excepto, claro, o do Museu Bocage na Exposição do Mundo Português. Se algum naturalista o deixou em Cabo Verde, ainda pode vir a ser redescoberto. O "Crescei e multiplicai-vos" demora o seu tempo.

XPTO, ornitólogo, tece críticas ao meu texto "A Sala do Museu Bocage na Exposição do Mundo Português" (exposição realizada em Lisboa em 1940), capítulo do livro "Francisco Newton, Cartas da Nova Atlântida", em linha no seu site: http://br.geocities.com/francisconewton. Nesse texto, que resulta da análise do catálogo da exposição do Museu Bocage (2), afirmo que:

- nenhuma espécie importante para a ciência, nem das colónias nem de Portugal continental, teve exemplares a representá-la na Exposição;

- na Exposição do Mundo Português, o Museu Bocage só apresentou espécies de larga distribuição, cosmopolitas, as que não têm valor para a ciência;

- na Exposição do Mundo Português, nenhum naturalista português foi homenageado com exemplares representantes de espécies de sua autoria, todas as espécies apresentadas tinham sido originalmente descritas por estrangeiros, a começar por Lineu.

Ora estes factos, extraordinários num período imperialista da nossa história, são ainda mais bizarros se atendermos aos objectivos de auto-glorificação do regime colonialista que conduziram a Exposição, uma das maiores que algum dia se realizaram em Portugal: onde as provas da exploração científica das colónias? O Museu Bocage era então um museu colonial, toda a sua tradição vem ainda hoje do naturalista que lhe deu nome, Barboza du Bocage, cujo trabalho incidiu maioritariamente na classificação de aves, mamíferos, répteis e anfíbios das possessões portuguesas de África. Um fenómeno tão pouco natural precisa de explicações, e várias se podem aventar, incluídas as políticas, pois o gesto resulta numa bofetada ao regime. Bofetada que aliás não espanta muito, sabendo-se que o comissário dessa secção científica da Exposição foi Henrique Galvão, o líder do assalto ao paquete Santa Maria (veja, no TriploV, Zoo_Ilógico: "Nem todos os gatos são leo_pardos)", operação terrorista que visou chamar a atenção do mundo para as injustiças do governo de Salazar. Nunca vi nenhum historiador das ciências, e eles existem até no Museu Bocage, tratar destes aspectos da ciência em Portugal. Só eu me tenho ocupado deles. O catálogo da Sala do Museu Bocage é uma vergonha até para mim, que sou de Letras, mas trabalho na instituição. Porém são as gralhas do meu texto a tentar entender o catálogo e não as do catálogo da instituição científica responsável por ele que XPTO vem criticar. Ainda bem, nada como o ruído das gralhas para quebrar o silêncio sepulcral.

Quando XPTO diz que a única explicação para essa vergonha - que se estende a outros grupos animais e regiões e não apenas às aves de Cabo Verde - foi a ignorância e indiferença dos responsáveis científicos do Museu Bocage, está a emitir opiniões. Não apresenta nenhum documento para fundamentar o seu juízo de valor sobre a competência dos cientistas portugueses da época, no caso representados por Arthur Ricardo Jorge, então director do Museu.

Eu não dou opiniões. Declaro que o Museu Bocage não apresentou nada de relevante na Exposição porque nada havia para apresentar, as colecções tinham sido destruídas. E para essa destruição há provas. Entre elas, o catálogo de répteis e anfíbios (3), datado de 1915, de que agora mostro fragmentos que dizem respeito aos exemplares de Cabo Verde. Essa lista foi feita a partir das etiquetas dos frascos: os funcionários que elaboraram a lista, o mais que podem, na maior parte dos casos, é pôr pontos de interrogação nos lugares correspondentes aos nomes científicos, localidades de colheita, datas de colheita e colector/ofertante. Dentro dos frascos os animais podiam até estar intactos, mas sem a informação escrita, a colecção perde o valor científico. Ora em que circunstâncias podem as etiquetas das colecções de um museu ser destruídas na sua maior parte? As inundações deixam rasto na História, terramotos, também, e o Museu sofreu um, violento, que arremessou ao chão a frascaria dos peixes, colaborei na sua reconstituição. Não temos notícia de nenhuma calamidade que pudesse destruir as etiquetas, deixando intactos os frascos e os animais. Aliás, as etiquetas estavam nos frascos, o que foi destruído foi o texto escrito nelas, que ficou ilegível.

O segundo documento que prova a destruição é o "Relatório do Director" (1), de 1961, em que J.A. Serra informa que as colecções que lhe chegaram às mãos eram apenas uma parte do que outrora existira, etc., e anota que muitos exemplares-tipo, os indivíduos que tinham servido para a descrição original das espécies, se tinham perdido. Serra atribui as culpas à incúria da anterior direcção - Arthur Ricardo Jorge. Porém já em 1915 alguém tomara a enigmática decisão de mandar fazer um inventário dos exemplares a partir de etiquetas ilegíveis. Estas listas são inúteis de um ponto de vista da História Natural, só serviram para ficar guardadas até hoje no Arquivo histórico do Museu Bocage, resistindo a bombas, incêndios e terramotos, na esperança de que alguém as leia de modo a compreender o que se passou durante o tempo de Bocage.

Depois de 1915 houve ainda mais destruições. Serra alude à granada que atingiu uma das salas no curso das revoluções dos anos 20. Foi a Sala Africana a vítima. Eis um tema bem proveitoso para a história do naturalismo, talvez um dia o venha a desenvolver eu, porque os autores não são unânimes nem na data do ataque nem na arma disparada: Serra fala de granada, outros de bomba, de maneira que, a darmos crédito a todos, foi movida uma guerra com várias e distintas batalhas contra a instituição fundada por Barboza du Bocage. Ora a versão que me foi transmitida no Museu sobre o que motivou o rombo no tecto do Museu Bocage remonta aos tempos da monarquia.

Saiba XPTO que há 36 anos eu entrei ao serviço do Museu Bocage como ajudante de preparador. Fiquei ligada ao círculo de Arthur Ricardo Jorge, então jubilado, mas que mantinha o seu gabinete no Museu com uma colecção magnífica de poliquetas, que eu ajudava a conservar, renovando-lhe o álcool todos os anos. Tal como renovei muitas vezes o álcool de outros frascos de que ele se evapora, como diz J.A. Serra, acreditando que durante a direcção de Arthur Ricardo Jorge se tinham deixado consumir pela traça e pelos antrenos a maior parte dos exemplares. Nesse círculo dos que trabalhavam ainda à sombra de Ricardo Jorge, ouvia eu explicar que os exemplares mumificados estavam assim por os franceses terem bebido o álcool dos frascos. Aquele rombo no telhado também era obra dos franceses, tinham sido os franceses a disparar sobre o Museu um tiro de canhão.

E eu acreditei, claro. Tal como Serra acredita em destruições por incúria. Até há bem poucos anos, acreditei em todas as paródias do naturalismo. E só quando comecei a fazer História das ciências verifiquei que, no tempo das Invasões Francesas, o que existia era o Real Jardim Botânico da Ajuda. Ainda não existia Escola Politécnica, e por conseguinte não havia nenhum museu no recinto da Politécnica em que hoje funciona o Museu de História Natural. A fundação do Museu de Lisboa, na Politécnica, data de meados do século XIX.

Já temos a destruição do registo escrito das etiquetas, antes de 1915, a granada e/ou as bombas dos anos 20, tudo aquilo que possa ter acontecido mais e eu ignoro, a provar que não havia nada de importante para o Museu mostrar na Exposição do Mundo Português, mas sei que a destruição mais radical veio depois da Revolução de Abril. Foi o incêndio na Faculdade de Ciências (substituta da Escola Politécnica, no mesmo local), em 1978. Aflige-me pensar que as listas de remessa de exemplares de Francisco Newton possam ter ardido, apesar de as cartas se terem salvo. Essa é uma lacuna grave no meu trabalho, "Francisco Newton, Cartas da Nova Atlântida", tanto mais que me sinto pessoalmente responsável por elas. No círculo de Ricardo Jorge, uma das minhas tarefas foi a de catalogação dos documentos do Arquivo histórico. Essas listas estavam dentro das cartas. Em obediência a instruções superiores, retirei as listas de dentro das cartas, ou "separei as filhas das mães", como dizia Maria Morais Nogueira, naturalista sob cuja orientação eu trabalhava no Arquivo. Foram feitas duas secções, uma para a correspondência, outra para as listas de exemplares. Tudo numerado: "Rem. 247", por exemplo, significa que o catálogo "Deposito de reptis" é o documento número 247 na secção "Rem.", abreviatura de "Remessas". Em algumas cartas, com a minha caligrafia, está a nota a lápis de que nelas existia uma lista dos exemplares enviados por Francisco Newton. Quando comecei a reunir a documentação de Newton para o trabalho, procurei as listas de remessa e não as encontrei. Essas listas fornecem a indicação de locais e datas de captura de aves, entre outros grupos animais, em São Tomé, Príncipe, Cabo Verde, Guiné, etc.. Se XPTO pudesse descobrir o paradeiro dessas listas, isso seria óptimo também para si.

XPTO chama ignorante a Ricardo Jorge. Se ler o meu texto "Ciência e subversão - Augusto Nobre" (4), verifica que o ilustre zoólogo cria um modelo de distribuição geográfica de moluscos terrestres em que várias localidades portuguesas ficam em lugar errado. Uma delas é Coimbra, que ora aparece na região do Douro, ora na Estremadura. Augusto Nobre e Ricardo Jorge têm particularidades em comum, uma delas é serem naturalistas, outra é serem políticos: ambos foram ministros da Educação. Se Ricardo Jorge fosse ignorante, Carlos Almaça não lhe teria dedicado um elogioso artigo na recente homenagem da Faculdade de Ciências a alguns dos seus professores-cientistas (5). Se Augusto Nobre não soubesse onde fica Coimbra, não teria passado no exame da quarta classe, e por isso não seria hoje uma referência indispensável para todos os que se ocupam de peixes, moluscos e outros invertebrados de Portugal.

Ignorante, aqui, sou só eu, e nisso, caro XPTO, dou-lhe inteira razão: pensava eu que só Leonardo Fea tinha coligido exemplares de cuco europeu em Cabo Verde, afinal leio agora num catálogo (6) que há quatro registos de captura, como se vê na imagem.

Eis uma notícia que me enche de alegria, pois todas as espécies de que há referência antiga em certa região, sem capturas na sequência, têm vindo a ser redescobertas. Já a presença de Angus Gascoigne no TriploV também foi preciosa (7), por ter trazido a lume a de umas quantas nas ilhas do Golfo da Guiné. Fico à espera que apareça a Hyalonema lusitanica em Setúbal, a Chioglossa lusitanica em Sintra e no Alentejo, a Certhilauda duponti no Alfeite, e esta pertence ao grupo das aves, interessa-lhe de perto, o sapo de ventre cor de fogo em Coimbra (8), a mamba de São Tomé em São Tomé, e acima de tudo o cuco esmeraldino em Cabo Verde, entre muitas mais.

Resta no entanto uma perplexidade, a que me tem movido a estes trabalhos, que não têm nada a ver com a sinonímia e ainda menos com a fauna, sim com a literatura escrita pelos naturalistas: o que há de natural em espécies de que só de trinta em trinta anos ou mais se descobre um indivíduo? Notas como essa acima sobre o Cuculus canorus em Cabo Verde, de que ao longo de décadas a ciência só registou a presença de dois ou três adultos e um ou dois imaturos, são ridículas. A minha hipótese para explicar esse ridículo, já sobejamente conhecida, é a de que essas espécies foram introduzidas e/ou hibridadas pelos próprios naturalistas.

Um abraço,
Maria Estela Guedes
Lisboa, 2 de Julho de 2003

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(1) SERRA, J. A. (1961) - Museu e Laboratório Zoológico e Antropológico. Relatório do Director. Revista Portuguesa de Zoologia e Biologia Geral. Vol. 3 (1-2), p. 1-24 (1961). Extractos em linha neste site

(2) JORGE, Artur Ricardo (1942) - A Sala do Museu Bocage na Exposição do Mundo Português - Lisboa, 1940. Arquivos do Museu Bocage, 12: 87-118. Não assinado.

(3) Deposito de reptis. Ms. Arquivo histórico do Museu Bocage, Rem. 247. Imagens em linha neste directório.

(4) Ciência e subversão - Augusto Nobre. Em linha.

(5) In: Memórias de Professores Cientistas. Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, 1911-2001. Ed. da Fac. Ciências da Univ. Lisboa, 2001.

(6) HAZEVOET, Cornelis J. (1995) - The Birds of the Cape Verde Islands. British Ornitholgists’ Union, Tring. B.O.U. Check-lis No.13.

(7) He is a biologist, not a spy. Entrevista a Angus Gascoigne. Em linha no TriploV.: "ao_email.com"

(8) Cartas de Rosa de Carvalho. Em linha no TriploV: http://triplov.com/rosa/.


DEPOSITO DE REPTIS - EM LINHA NO TRIPLOV: http://triplov.com/newton/
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