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J.A. SERRA
MUSEU E LABORATÓRIO ZOOLÓGICO E ANTROPOLÓGICO
RELATÓRIO DO DIRECTOR

In: Revista Portuguesa de Zoologia e Biologia Geral. Vol. 3 (1-2), p. 1-24 (1961).
(Extractos; os sublinhados a vermelho são do TriploV)

Completaram-se 4 anos sobre a data em que tomei a responsabilidade da direcção do Museu e Laboratório Zoológico e Antropológico (Museu Bocage da Faculdade de Ciências de Lisboa). A perspectiva que já tenho do caminho percorrido nestes anos, aconselha a que faça um breve relatório do que tem sido a minha actividade e a dos serviços do Museu e Laboratórios. Para as grandes instituições parece indicado o sistema do relatório anual; para as pequenas, como são as nossas dependências nas várias Faculdades do Pais, isso equivaleria, em regra, à repetição em anos sucessivos do que já foi dito, ou a uma diminuta lista de adições. O caminho que escolho é o de relatar de vez em quando o progresso alcançado, quando houver para tal oportunidade. Porque convém não esquecer o principio de que um director de serviços como os que são os anexos às Faculdades de Ciências deve ser principalmente um trabalhador científico (para não dizer um cientista, termo de significado já dúbio), não se burocratizando com meras actividades administrativas e relatórios, e não permitindo que, a começar por si, os laboratórios e museus se transformem em repartições burocráticas.

É o Museu e Laboratório Zoológico e Antropológico destinado ao ensino, investigação e exposição pública de exemplares e, através esta ou por outros modos, à educação zoológica e antropológica do público. Há ainda uma dependência do Museu que é o Laboratório Maritimo da Guia. A estas finalidades correspondem determinadas funções, que são tratadas nas sucessivas secções deste relatório.

[...]


5. MUSEU

O Museu esteve fechado ao público no tempo da anterior direcção, creio que por 20 anos, ou cerca disso. Porém, antes de expirar o termo dessa anterior direcção, reabriu o Museu ao público. Enquanto esteve fechado, as colecções, a julgar pelo péssimo estado de muitos exemplares, não foram devidamente cuidadas. Fácil é imaginar o que isso representa para um Museu Zoológico onde há preparações de peles que são atacadas pelas traças, antrenos e outras pragas dos museus, frascos com exemplares em que o álcool se evapora, caixas com pequenos animais que ficam completamente destruídos. Foi isto o que aconteceu em deplorável escala durante esses anos de abandono ou incúria.

O que chegou até mim em colecções do Museu representa, pois, uma parte do que foi antigamente a secção de Zoologia do Museu de História Natural. O Museu de Coimbra, que lhe era inferior e foi organizado por um discípulo de Bocage, ficou assim em pé de igualdade ou talvez melhor. Pelo menos, o de Coimbra nunca sofreu os estragos e incúria por que o de Lisboa passou, e a sua ordenação foi cuidada por funcionários que tinham em estima o valor cultural que representam os exemplares de um Museu de História Natural.

Em duas salas grandes do Museu Bocage havia quase só restos de antigas e valiosas preparações, esqueletos com falta de cabeça ou de membros, peles depeladas e roídas pela traça, exemplares dentro de caixas que quando se lhes pegava se esfarelavam. Com o concurso do então naturalista do Museu Sr. L.do Carlos Pissarro, procurou-se salvar o que pudesse ser salvo, fazendo-se sistemática revisão do estado dos exemplares. Também se tem procurado recuperar algumas preparações osteológicas e esqueletos, nos casos em que isso é possível. O que resta de algumas dessas preparações, as que talvez em parte sejam recuperáveis, continua concentrado em uma sala, melhorando-se o seu estado à medida que os morosos e pouco voluntariosamente executados trabalhos de preparação (ver adiante: «Pessoal») o vão permitindo.

Parece que houve no tempo da anterior direcção a ideia de fazer deste Museu antigo uma exposição em compartimentos pequenos, num arremedo de técnicas de museologia com grupos ecológicos e habitats naturais. O bom senso chega para concluir, porém, que nem o edifício é adaptável para isso sem uma enorme despesa, nem a parcimónia do orçamento do Ministério a que pertencemos, que tem que atender a tantos e tão variados serviços, poderia aguentar o pagamento dos funcionários, bons preparadores, montadores, cenaristas, pintores e modeladores, que seriam necessários para fazer qualquer coisa nesse estilo museológico, dentro do Museu Bocage (ver um outro artigo, publicado pelo autor, na sequência deste Relatório).

O actual director compreendeu logo, que o que é possível, por agora, é procurar restitituir a dignidade que o Museu teve no tempo de Bocage e de Osório e não lhe tirar o carácter de Museu antigo. Por isso, uma sala que continuava em estado caótico e esburacada por uma granada desde os tempos das revoluções da década de 20 deste século, foi restituída à sua traça e aumentada com uma galeria semelhante às das outras salas. Os soalhos e tectos do Museu foram limpos e o carunchoso soalho com aspecto sempre de sujo, tomou um aspecto que agora não envergonha o Estado, possuidor destes bens.

A secção de entomologia, que em tempos foi rica, estava num estado miserável. Do naturalista encarregado desta secção (que tive que propor fosse contratado urgentemente logo após eu tomar a direcção, para ver se ainda se salvava uma parte dos exemplares) recebi um relatório de que destaco os seguintes passos, referentes à secção de Ortópteros:

«Os Ortópteros encontravam-se dispersos por caixas sem indicações extensas ou, quando estas existiam, não correspondiam ao conteúdo. Os exemplares, na maioria destruídos ou pelo menos atacados por antrenos...» ...«dado que a maioria dos exemplares são muito antigos e atravessaram um longo período de negligência que permitiu que se perdessem talvez dois terços das colecções e ficassem muito contarninados os restantes». E nos outros grupos é o mesmo ou pior. Talvez 20 000 exemplares ou mais, a julgar pelos lugares vasios e alfinetes sem exemplares, devem assim ter sido perdidos, entre eles dezenas de tipos.

De resto, nas outras secções também houve perda de tipos, alguns únicos, holotipos, outros cotipos. Os que se ocupam de Zoologia sabem que tais perdas são irreparáveis para o património de um museu.

As perdas sofridas pelo Museu Bocage, devidas ao abandono a que por tantos anos estiveram votadas as colecções, ascenderiam, se se Ihes quizesse atribuir valor mercantil, a vários milhares de contos, pois muitas das preparações eram das que hoje já quase se não fazem devido ao enorme trabalho que implicam, e os tipos são de valor incalculável.

Na medida em que a escassez de pessoal idóneo o permite, estamos procurando, após restituir ao Museu a antiga dignidade do tempo de Bocage, melhorar as colecções com novos exemplares e a modernizada exposição de outros que estavam a monte. Foram adquiridos frascos próprios, quadrangulares, de fabrico estrangeiro, nos quais se estão dispondo as colecções e valorizando a exposição ao público, trabalho este executado por funcionários sob a supervisão de naturalistas. Assim, já algumas centenas de exemplares foram substituídos ou foram adicionados às colecções públicas. As colecções científicas têm também sido aumentadas com o produto de numerosas colheitas, principalmente em Entomologia. Por outro lado, tem o signatário melhorado os métodos de preparação e conservação dos exemplares de Museu, tendo inventado para isso novas fórmulas mais eficazes e menos dispendiosas, o que permite melhor preservação das colecções.

As colheitas são agora burocràticamente dificultadas, nos dois últimos anos, pelo facto de a dotação para exploração zoológicas só poder ser obtida por antecipação de um duodécimo, quando anteriormente havia um arranjo para maiores requisições de fundos. Como as despesas exteriores têm que ser pagas a pronto e os 560$00 de gratificação que recebe o director mensalmente, mesmo que a adiante para despesas destas, não dão para nada, o financiamento assim efectuado leva a não se poderem fazer extensas e demoradas explorações com larga equipa de pessoal. Por mais esforços que tenha empregue, não consegui ainda remover este obstáculo burocrático.

Um outro ponto a focar é a falta de uma lista dos exemplares do Museu, que não recebi das anteriores direcções, para não falar já de um catálogo geral. Não tem o Museu tido funcionários capazes de realizarem esta tarefa, de que se fosse encarregar os naturalistas, estes não poderiam, durante muito tempo, fazer trabalho cientifico.

A simples inventariação, mesmo sem a preocupação de actualizar as designações, é um trabalho moroso, em que se ocupam, de há tempos para cá, três funcionários nomeados no ano transacto. O mais grave, porém, é que vários dos exemplares têm etiquetas erróneas, creio que por troca dessas etiquetas, ou por trocas de pedestais e de frascos, ao manusear as colecções sem cuidado. Esta situação vem de anteriores direcções, evidentemente. Quando especialistas destes ou aqueles grupos de animais vêm visitar o Museu, já estamos à espera que descubram esses erros, além de notarem a desactualização de grande parte da nomenclatura.

Estes males só lentamente se podem ir remediando, visto termos poucos naturalistas e só por longo estudo se pode ficar a conhecer um grupo. O melhor método consiste em obter revisões ou obras de conjunto e guiarmo-nos por elas. Por exemplo, a revisão e actualização dos Peixes do Museu Bocage, que andava a ser feita pelo naturalista Sr. Lic.do Pissarro com a minha colaboração, pôde realizar-se graças principalmente a que há um trabalho de conjunto sobre Peixes de Portugal (por R. M. Albuquerque), obra cuja publicação foi por mim impulsionada. Posso acrescentar que sou contrário ao recurso a especialistas estrangeiros para classificarem eles estas antigas colecções (mas não para novas que se vão constituindo agora, ou sejam recentes). Isto porque, além da fragilidade dos exemplares antigos, muitos desses especialistas reclamam, regra geral, os duplicados, que nessas antigas colecções são inexistentes ou se não podem ceder; e também e principalmente, porque é uma vergonha que no nosso Pais se não tenham ainda estudado durante tão longos anos, esses antigos materiais. Também convém não esquecer que há casos em que esses especialistas nunca mais devolvem os exemplares que se lhes confiaram, ou ficam com o melhor e mandam depois apenas os restos; no Museu Bocage há tradições, segundo empregados antigos, de que isto aconteceu com uma valiosa colecção entomológica, que nunca foi devolvida do estrangeiro.

Na realidade, o individuo que identifica os exemplares sente que tem direito, pelo seu trabalho, a uma paga que lhe não dão e então fica com as colecções a titulo de indemnização (isto está escrito por alguns, e não há dúvida que têm, pelo menos em parte, razão).

Só quando me convencer que não obteremos pessoal, principalmente taxonomistas, capazes de determinarem esse material, procurarei recorrer a estrangeiros que dêem garantias de devolver os exemplares.

Por esta mesma razão de entender que devem ser os naturalistas portugueses a estudar a nossa fauna, não encorajo a vinda de estrangeiros fazê-lo entre nós, pelo menos por enquanto. Causa desgosto notar como o pessoal nacional (refiro-me ao cientifico de museu) olha para esses estrangeiros com exagerada admiração, com um sentimento de inferioridade descabida e sem razão, como se o que é nacional, a começar pelas pessoas e pela cultura, estivesse condenado ao estigma da mediocridade. Não desejo dar ocasião para alguns taxonomistas indigenas poderem manifestar perante os estrangeiros a sua subserviência intelectual, que, se esses estrangeiros tivessem tendência para generalizar, poderiam julgar que era uma caracteristica de todos os Portugueses, o que é falso.