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ANTOLOGIA DE TEXTOS TERRORISTAS (1895-1997)

......1895

Em 1915, o CGRA inventariava o que sobrou da remessa de Seoane. Exemplares cuja falta é mais significativa, por representarem espécies que pertencem actualmente à herpetofauna ibérica, com este nome ou diverso:

Salamandra maculosa - Cabañas
Pelobates cultripes - Madrid
Alytes obstetricans - Santiago de Compostela
Hyla arborea var. meridionalis - Corunha
Hyla perezi - Sevilha
Discoglossus pictus - Galiza
Bufo vulgaris - Galiza
Caelopeltis lacertina - Madrid
Tropidonotus viperinus - Madrid e Sevilha
Tropidonotus natrix - Madrid
Rinechis scalaris - Madrid
Coronella austriaca - Orense
Seps chalcides - Galiza
Acanthodactylus vulgaris - Badajoz
Psammodromus hispanicus - Madrid
Lacerta muralis Bocagei - Galiza
Lacerta ocellata - Corunha
Lacerta ocellata iberica - Madrid


......1895

Ferreira publica a oferta de Seoane, e não havia dúvida: 204 exemplares, recommendaveis na sua grande maioria pelo interesse zoologico que dispertam e pela garantia de authenticidade. No catálogo, refere Chioglossa da Galiza, sem mais pormenores. Em rigor, devia ter explicitado que eram de Cabañas, mas Cabañas fica ainda mais a norte que o Alentejo, isto é, que Santiago.

Ref.ª: J. Bethencourt Ferreira, Reptis e Batrachios do Norte de Portugal e Hespanha. J. de Sciencias Mathematicas, Physicas e Naturaes, Academia Real das Sciencias de Lisboa, IV: 13.  


......1896

Seoane escreve a Ferreira, a desancá-lo por causa dos Reptis e Batrachios do Norte de Portugal e Hespanha, a despeito dos elogios que Ferreira lhe dirige:

1. O trabalho fez-se com remessas de Seoane, dera o melhor que tinha e até exemplares únicos, para demonstrar mi gran simpatía por el culto é inteligente pueblo portugués, Bocage devia ter respeitado o compromisso de permuta e não dera nada em troca.

2. Ferreira só considerou as localidades assinaladas aos espécimes remetidos, y a sido una lamentable equivocación. Tem nas suas colecções exemplares de todo o mundo, incluídas as Filipinas (onde o irmão, José, general da Marinha, fizera colheitas), e autorizados por todos os bons herpetologistas - dá a lista que já conhecemos, aliás referida por Ferreira a garantir a autenticidade. Esta repreensão é lógica, uma coisa é a localidade de colheita, outra a área de distribuição geral. No caso da Chioglossa, dizer que os exemplares são da Galiza já não é novidade; precisava de indicar Cabañas, localidade nova para a ciência, com a qual a área de distribuição alargava até ao extremo norte da Península. Mas há na crítica de Seoane algo de muito mais viperino - ele desafiava o Museu de Lisboa a dizer qual a área geral de distribuição de espécies como a Chioglossa, que tem os pais na Califórnia. Por isso refere as Filipinas, e não estranharemos que um dia se venha a descobrir que na Península existem espécies resultantes de hibridação com animais asiáticos, caso dos sapos parteiros. A família Discoglossidae, de que na Europa existem Discoglossus pictus e os Alytes, tem representantes nas Filipinas, Bornéu, China, Coreia, etc..

3. Todos, absolutamente todos os seus exemplares têm garantia de autenticidade, incluídos os que Bocage garantira que eram autênticos.

4. Mandara exemplares de todas as localidades, de várias idades, alguns vivos (en rut), de várias espécies, subespécies e variedades. Pergunta implícita: “O que é que lhes fez, porque é que não as referiu?”

Obs.: Vivos, mandara exemplares da Chioglossa. Embora se diga que é muito sensível ao aumento de temperatura, sendo por isso de difícil transporte, ainda se aguentou alguns dias viva em Lisboa. Viajou a grande velocidade desde o extremo norte da Península, com a protecção da barraca dos ferroviários.

5. Acerca das rãs, assegura que não estudou cientos, sino miles, que he consultado con Camerano, Strauch, Lataste, etc y sobre todo con Boulenger. Tinha enviado Rana temporaria parvipalmata, que Ferreira entendeu “relacionar-se intimamente” com a Rana iberica.

Obs.: O significado das relações íntimas varia não só de autor para autor como de espécie para “espécie”. Variedade era o híbrido, mas vão fazê-la passar por subespécie (em princípio, fruto de selecção natural). Seoane garante que as suas subespécies são bem fundadas, mas já a ambiguidade surge: puesto que, participando de las ideas de Schreiber, creo no debe darse grande importancia à estas variedades. Boulenger, Bedriaga, y otros, muy doctos, no opinan asi, y créen que, cuando los caractéres sean constantes en los individuos de un país determinado, debe establecerse una subespécie, no variedad.

6. Contesta também a restrição das localidades, dizendo que Rana Perezi e Hyla arborea são de todo o norte da Península.

7. Critica asserções sobre Lacerta Schreiberi Seoane. Acusa Boulenger e Bedriaga de terem partido de um suporte erróneo. Cita carta de Boulenger em resposta à que lhe escrevera, manifestando o seu direito à autoria: “Je partage entièrement votre manière de voir sur les L. Schreiberi-Gadovii, et je n'ai jamais songé à être contrarié de devoir retirer les noms que j'avais proposé pour cette variété”. Nem Boulenger nem Bedriaga aceitam corrigir erros gravíssimos: “L. Schreiberi es una y sola. Schreiberi de Bedriaga y Gadowii de Boulenger, son imaginarias. [...] y, esa variedad, por ser constante y dispersa por toda la Galicia y N de Portugal, lo menos; es buena.”

Obs.: Instaurara-se teatro litigioso sobre a autoria da forma, actual Lacerta schreiberi Bedriaga, que Seoane reclamava para si. Foram consideradas primeiro duas variedades de Lacerta viridis. Bedriaga previu que viriam um dia a ser classificadas como única, sob a denominação de Gadowi. Boulenger juntou-as sob o nome de schreiberi. Há características interessantes na mutação de L. schreiberi, umas manchas que Ferreira atribui a juvenilidade e designa por acidentes. Este facto impressionou os zoológos e em especial Seoane, o primeiro a dar conta delas.

Posta a questão de outra maneira, estes lagartos devem ter sido hibridados - ou seleccionados artificialmente, segundo a técnica simples de cruzar adultos com caracteres juvenis -, e a autoria que Seoane reclama é a de criador de espécie e não a de autor de descrição. Mas o problema mais interessante continua a ser o de que os criadores não admitem que a sua criação seja subalternizada, por isso reclamam para as variedades o estatuto de subespécies, o que lhes dá direito a serem abrangidas pela História Natural.

8. Reclama por Ferreira ter chamado Triton hispanica n. var. ao seu Triton Alonsoi !!!

9. Grita que os batráquios não se podem estudar com dois ou três exemplares, é preciso “estudiar sus larvas!” - triplo sublinhado.

Obs.: Carta furiosíssima, cheia de sublinhados e exclamações. A maior decepção de Seoane vem de que a sua remessa, enviada ao director do Museu, não foi objecto de artigo publicado por ele, sim por um estreante. Lemos uma carta de Bocage (27) para um naturalista do Museu de Lisboa, a informar que ia enviar uma remessa de répteis e anfíbios de Seoane, para serem estudados pelo Mattozo, com quem Seoane desejava ter correspondência.

Mattoso Santos era professor na Politécnica. Político, foi umas duas vezes ministro, uma já durante a República. Tem um livro de divulgação da nova sistemática, fruto do darwinismo, e artigos sobre insectos e biologia de anfíbios. Bocage morreu em 1907, Fernando Mattoso Santos sucedeu-lhe na direcção do Museu Bocage. Foi sob a direcção dele, em 1915, que se elaboraram catálogos manuscritos das colecções, entre os quais encontrámos o CGRA. As cartas de Seoane que existem no Arquivo histórico do Museu Bocage não mencionam Mattoso Santos. Este não deve ter aceite o encargo de publicar o catálogo da herpetofauna ibérica, acabou a tarefa por recair sobre o jovem Bettencourt Ferreira.

10. Corrige: Triturus boscae é dele, Seoane, e não de Lataste. O facto de Lataste ter escrito boscai só quer dizer que a palavra é dele, não a espécie.

11. Reclama que não deu as suas colecções a troco de nada, quer duas ou três remessas, que esto no he recuerdo.

Obs.: Nesta data já no Museu Bocage não devia haver nada para a troca e nem sequer para a devolução. Acabámos de ver que a remessa de Seoane foi em parte destruída.

12. “Solo se debe substituir la especie, cuando sea perfectamente estudiada y descrita en todos los países!”

13. Chama ”niños grandes” a Boulenger, Bedriaga, Boettger, Lataste, por estarem sempre a mudar a nomenclatura e a encher páginas com sinónimos. Alude a um jogo de tira e põe entre Boulenger e Bedriaga, “por un... lagarto!!” É a guerra de L. schreiberi, na qual Seoane, esteja ou não a fingir, é quem mais refila.

14. Pede a Ferreira que rectifique o opúsculo.

Obs.: Não temos conhecimento de erratas. Seoane, que nesta data ia nos 61 anos, termina aqui o seu papel na Operação Salamandra.

Ref.ª: Carta de Seoane para Bettencourt Ferreira. Coruña, 10 de Fevereiro. AhMB, CE/S-48.  


......1896

Paulino de Oliveira, director do Museu de Coimbra, amigo de Rosa de Carvalho, publica tarde (5 anos antes de morrer), um texto muito revelador sobre a Chioglossa - “que descobrimos no Buçaco”, esclarece ele. Os exemplares descritos por Bocage provinham do Buçaco e não de Coimbra. As declarações têm o peso do criador, mais forte que o do autor da descrição. Num opúsculo sobre répteis e anfíbios da Península Ibérica, Manuel Paulino fornece a chave diagnosticante da família Plethodontidae, americana. Porquê uma família americana em espaço ibérico e sobretudo português? Porque a espécie Spelerpes fuscus (actual Hydromantes italicus), pertencente à família americana, está presente na Península: Segundo Schreiber, a existência desta espécie na nossa Península, indicada por Hallow, carece de verificação. Existe na Itália, Sicília e França.

Hallow (Alô!) é o que se reverencia como santo, segundo o dicionário de inglês. Esta informação é sagrada, respeite-se a sua verdade. E Hallow é também metade de um nome, como Spelerpes fuscus metade de um híbrido (Chioglossa).

Hallow é Hallowell, reputadíssimo herpetologista americano, ligado à Academia de Ciências Naturais de Filadélfia, essa célebre Academia cujos estatutos foram elaborados por um português, Abade Correia da Serra. Hallowell assinou a descrição de várias espécies das nossas colónias africanas.

A seguir, Manuel Paulino faz algo de mais inesperado ainda: refere os caracteres gerais da família Chioglossidae, na qual inclui a única espécie Chioglossa lusitanica, como se tal família tivesse sido descrita antes, tudo isto fosse do consenso geral. Não estava descrita nenhuma família Chioglossidae. Se um género com uma só espécie é uma raridade, uma família com um só género aproxima-se de maiores raridades ainda, como o celacanto ou o tuatara. Paulino de Oliveira está a fazer uma dura repreensão à ciência normal, por os seus padrões de interesse serem pré-lineanos, incidirem no único e extraordinário, quando única e extraordinária é a obra de arte, não os seres idênticos entre si que se reproduzem em séries idênticas às progenitoras. Mais avançado fora Lineu, no seu Systema Naturae, ao dar primazia às espécies vulgaris - que entretanto deixaram de se chamar vulgaris.

Já vimos os autores usarem o termo curiosidade para classificar a Chioglossa. Os primeiros museus de produtos naturais começaram por ser os gabinetes de curiosidades, onde se expunham objectos que despertavam a curiosidade, por serem únicos, raros e curiosos: belas aves exóticas, lindas conchas polidas, pedras preciosas, de mistura com teratologias, medalhas, moedas e relíquias de santos. Com as relíquias corre-se sempre o perigo de vermos numa vitrina o segundo braço direito de S. Sebastião ou de conservarmos num cofre da Politécnica o esqueleto feminino de Padre José de Anchieta. A Chioglossa é uma relíquia como o celacanto e o tuatara, para quem os considera espécies sem afinidades com outras - órfãs. Nada de mais oposto ao recém-criado híbrido que a relíquia, também chamada fóssil vivo.

Mais claro ainda é ele na descrição, pois não há diferença morfológica sensível - apenas ligeiras diferenças de redacção - entre as famílias Chioglossidae e Plethodontidae. A Chioglossa é essencialmente uma salamandra da família Plethodontidae, eis o que ele declara. A criação do táxone Chioglossidae é altamente polémica, solicitava análise e crítica. Nem uma palavra de discussão gerou, aliás a ciência defende-se dizendo que são erros tudo o que citamos, mas onde estão as erratas para o provar?

 Quanto à distribuição, diz que se encontrara esta curiosa espécie em diferentes localidades a partir de Elvas para o norte; mas que não tinha conhecimento da sua existência ao sul de Portugal, nem nas regiões mais setentrionais do nosso país. Pouco vulgar.

Ref.ª: Manuel Paulino de Oliveira, Reptis e Amphibios da Peninsula Iberica e especialmente de Portugal. Imprensa da Universidade. Coimbra.

Obs.: Este opúsculo teve uma reedição póstuma em 1931. Ver. 


......1897

Vieira inclui a Chioglossa na família Chioglossidae, diz que o nome vulgar é desconhecido do vulgo e que é pouco abundante. No Museu de Coimbra há 5 exemplares, 4 de Coimbra (col. Rosa de Carvalho, 1885) e 1 do Gerês (col. A. Tait, 1887).

Ref.ª: A. X. Lopes Vieira, Catalogo dos  Reptis e Amphibios do continente de Portugal existentes no Museu de Zoologia da Universidade de Coimbra. Annaes de Sciencias Naturaes, Porto, IV.

Obs.: Na data atribuída às colheitas de Rosa há um atraso de 20 anos. Aliás é ininteligível que, no Museu de Coimbra, sendo Paulino de Oliveira director e o verdadeiro “descobridor da espécie”, só 20 anos depois da descrição tivessem dado entrada exemplares de Chioglossa. Se isto é verdade, então é porque só a partir dessa data ela passou a existir em Coimbra. Paulino de Oliveira esperou trinta anos até dar chancela à sua própria espécie.

Obs.: No Paúl da Arzila, região de Coimbra onde trabalhou o Bicheiro-Mor, têm sido descobertas espécies de anfíbios ainda não catalogadas para Portugal, mas nós não podemos prolongar indefinidamente a nossa história. 


......1897

“Esta familia conta ainda o genero Chioglosa Barboza, tendo duas especies, uma das quaes, a C. lusitanica Barboza, é de pelle delicadamente granulada”; “nas costas tem duas e na cauda 6 fachas longitudinaes”. “Esta salamandra habita quasi exclusivamente Portugal: é muito rara em Hespanha”.

Ref.ª: Paulo de Moraes, Zoologia Elementar Agricola. Lisboa.

Obs.: A segunda espécie de Chioglosa a que se refere o autor ainda não foi descoberta. Quando for, a glosa (à descrição original) poderá não conservar faixa nenhuma. Segundo Bocage, duas largas riscas longitudinais fundem-se em só uma na cauda. Moraes acrescenta que as seis faixas se tocam. Imaginamos que 3+3 riscas fazem leque, não se vê bem como nem onde, o que aliás pouco interessa. Interessa, tal como na dimensão das larvas (0,033 m), o doble de ternos. 


......1899

Nas colecções do gabinete de História Natural do Porto, dá entrada Chioglossa das margens do rio Souza, depositada por Alves dos Reis Junior. Estamos na linha do Douro.

Ref.ª: A. Nobre, Catalogo do Gabinete de Zoologia. Annuario da Academia Polytechnica do Porto, 1898-1899.


......1905

......- Ord. Urodela
......Fam. Chioglossidae
.....*Chioglossa lusitanica, Boc.. N. v. - ? -”

Ref.ª: Anthero Frederico de Seabra, A Regeneração da fauna ornithologica da Mata Nacional do Bussaco. Boletim da Direcção Geral de Agricultura, 8 (2).

Obs.: O asterisco assinala que a espécie é útil. A Chioglossa é um animal insectívoro, eis o motivo primário por que foi aclimatada na Península Ibérica. N. v. é o nome vulgar, desconhecido.  


......1910

Boulenger informa que não se conhece ainda o modo de reprodução. Ora já em 1886 Sequeira dizia que as larvas medem 0,m033 ao sairem do ovo, significando isto que a Chioglossa é ovípara, o que não é citação literal de Boscá (1881): “Ses larves, aux premiers jours du mois de juillet, mesurent 0,m033 ou un peu moins”. Daqui não se conclui que seja ovípara, conclui-se é que só agora reparámos que, para as larvas serem tão grandes, é porque os ovos são de avestruz. Outros autores falam de 20-25 milímetros, já em fase de metamorfose.

Ref.ª: G. A. Boulenger, Les Batraciens et principalement ceux d'Europe. Paris.

Aviso ao leitor. Os herpetologistas é que conseguem dar conta de todas as armadilhas, nós só somos sensíveis às Altas Vendas, às barbaridades que saltam aos olhos. Falta-nos formação especial que permita dar conta de barracas finas. A antologia tem decerto mais informações anómalas, de que ainda não nos apercebemos. Mas já todos percebemos que o 3 é um sinal vermelho, uma placa de trânsito com a palavra PERIGO estampada em cima.  


......1911

Novas localidades: “Saudinha (S. de Goes)! Valongo! Assez commun dans le nord!”

Ref.ª: J. Bethencourt Ferreira & A. F. de Seabra, Catalogue Systématique des Vertébrés du Portugal. III-IV - Reptiles et Amphibiens. Bulletin de la Société Portugaise des Sciences Naturelles, V (3): 97-128.

Obs.: O que existe perto de Góis é a localidade de Sandinha. Seabra há-de referir que a Chioglossa tem manifesta preferência pelas águas férreas. Assina este artigo com Ferreira, pertence-lhes a localidade Valongo, onde se situa a mina de Águas Férreas. Para Seabra dar a Ferreira oportunidade de se iniciar na Operação Salamandra, foi escolhido um topónimo adequado, não apenas um lugar. Não sabemos é se Ferreira conseguiu sair da fase de quadraçal.  


......1931

Reedição do opúsculo de 1896 de Manuel Paulino de Oliveira. Confrontando as duas edições, verificámos que há respeito pela matéria original, apenas se actualizou a ortografia, de um lado; de outro, desrespeitou-se a nomenclatura no aspecto ortográfico. Se a palavra Chioglossa aparece bem escrita duas vezes, já a imaginária família passou a chamar-se Chiogsossidae (pág. 51) e Chioglosidae (índice); a espécie, abreviado o nome do género, passou a D. lusitanica (índice), o que dá Dioglossa - língua divina, a diva-garrafa ou língua das aves dos alquimistas. As palavras não são só palavras, insiste o semiólogo Frei José Augusto Mourão, embora não diga que a Palavra é instrumento de revelação. Quase todas as mutações de caracteres no nome da salamandra incidem no genérico, salvo de início, em que se gera ambiguidade sexual, escrevendo-se "o Chioglossa", "quioglosso" e "lusitanicum". Ferreira altera a primeira parte do vocábulo, em Chiglossa, mas as mutações incidem com maior frequência na raiz grega que significa língua. Portanto é a natureza da própria linguagem nomenclatural o que está a ser revelado - o signo muta para informar que o seu referente é mutante. Além de significação, temos significância: significado consignado pelo uso normal e sobre-informação, própria das práticas poéticas.

Utilizámos um exemplar do texto (livro nº 669 da biblioteca do Museu Bocage), que tem errata dactilografada. Não faz sentido em relação ao texto de 1896, e chega a emendar o que não é preciso ou para pior. Na diagnose das víboras, Manuel Paulino achou suficiente a expressão “pupila alongada”. O responsável pela reedição emenda para “alongada verticalmente”.

Qualquer pessoa sabe que a pupila não se traça horizontalmente no olho, por conseguinte a descrição de Manuel Paulino é boa, não precisava de ter sido substituída por uma redundância, a menos que se queira chamar a atenção para qualquer anomalia relacionada com o facto de estes animais serem ou não nocturnos. Os diurnos têm pupila circular.

O conteúdo da errata parece ocioso, à excepção do título e de que uma errata ociosa tem por força de ser algo muito diverso de uma errata. Trata-se de uma declaração formal, como indica o título, e em situação normal as erratas não o têm, menos ainda um título que não é o da obra - Repteis e anfibios de Paulino de Oliveira. Ficámos a saber que os répteis e anfíbios não são de Portugal e Espanha, sim obra do Criador. Ou do próprio Paulino de Oliveira.

Eis-nos face a um livro com errata que não corrige erros graves como D. lusitanica, Chioglosidae e Chiogsossidae. Se as erratas servem para os emendar e estes não foram emendados, resta concluir que não são erros. Não sendo erros, os signos veiculam informação científica válida, sobre mutação de caracteres.

Ref.ª: Manuel Paulino de Oliveira, Reptis e Anfíbios da Península Ibérica e especialmente de Portugal. Imprensa da Universidade. Coimbra.


Na sequência e com especial destaque, a
GRANDE ENCICLOPÉDIA PORTUGUESA E BRASILEIRA
 

Os textos sobre os Quioglossídeos, na Grande Enciclopédia, têm Paulino de Oliveira como fonte primária, no que toca à inclusão dos animais na família Chioglossidae. No domínio da anatomia, outras fontes terão informado que a cauda é longa, “quase duas vezes mais comprida do que a parte anterior do corpo” e que “o comprimento total é, em média, 24 cm, sendo 10 da cauda”.

A Chioglossa tem em norma 13-14 cm, 15 excepcionalmente, cauda incluída, e esta é cerca de duas vezes maior que o corpo. Os 14 cm de corpo de que fala a enciclopédia (que dariam um animal com 42 cm, mantendo as proporções normais) não correspondem a nenhuma salamandra europeia, portanto só podem pertencer a espécimes da hiperbólica família Chiogróssidae. Pleurodeles waltl, que só existe na Península Ibérica, é uma salamandra grande - chega a atingir 30 cm. A Chiõgrossâ éncyclopica ultrapassa-o em muito. Oxalá não estejam a insinuar parentescos com ele. É tão inconcebível como a serpente emplumada de Moller.


......1937

“A independência de Portugal não é somente, como afirma o citado publicista, - um dogma político peninsular -. É, antes de mais nada, o resultado natural da separação em duas regiões bem distintas, pela conformação e constituição geológica e geomórfica, mineralógica e petrológica e pela diferença considerável, e até profunda, da Flora e da Fauna […] pela vegetação, pelas associações animais, pela natureza, índole e distribuição das espécies, umas privativas ou exclusivas, endémicas ou transitórias outras; pelas suas localizações limitadas e precisas, como acontece, do nosso lado, com a Chioglossa lusitanica Boc., com o Hemidactylus turcicus Lin., da faixa meridional arenosa, do Algarve e um tanto com o Triton palmatus Schd. E com o Pleurodeles waltli Michah.”

Refª.: J. Bethencourt Ferreira, Independência da fauna portuguesa (Ecologia lusitânica - Apontamentos duma lição). Instituto de Zoologia “Augusto Nobre”, Porto.

Obs.: Hemidactylus turcicus (L.) (26) é uma osga cosmopolita. Como o nome indica, foi descrita originalmente com exemplares da Turquia. Pleurodeles Waltlii/waltli/waltl é considerado hoje uma espécie endémica da Península Ibérica. De acordo com a saudável leitura das terroristas Actas da Sociedad Española de Historia Natural, o modo como a povoaram foi assim: 

Alguna de éstas (charcas) debió quedarse con poquísima agua, para que un huracan levantara centenares de Salamanquesas, como así los llaman en Ciudad-Real, produciendo allá por el verano de 1862 una lluvia de ellas hácia el noroeste de dicha poblacion y como á la distancia de una legua (Boscá) (28).

Portanto foi assim que os Pleurodeles, aquelas mestrôncicas salamandras que Seoane confundiu uma vez com a Chioglossa, povoaram a Península: voando da Catalunha para Coimbra e chovendo sobre a Galiza. Deve ter sido também num tornado que os ancestrais cá chegaram, vindos de qualquer lado muito próximo, como as Filipinas.

Quanto a Triton palmatus, hoje é uma subespécie, Triturus helveticus sequeirai. O autor da descrição, Wolterstorff, especialista em híbridos, dedica a forma a Eduardo Sequeira, aquele jornalista que acusou o cego e subterrâneo Blanus cinereus de andar a ver as colecções do Templo do Progresso (nota 26). Sequeira sabe que o Palácio de Cristal ainda não tinha sido construído à data de captura, tal como não devia existir ainda a Rua da Restauração. Numa carta sem destinatário - Porto, 1 de Outubro de 1892 - Isaac Newton explica a alguém do Museu de Lisboa que capturara dois exemplares de “Amphisbaena cinereus” 32 anos antes, portanto em 1860, “no monte que vem do Palácio de Cristal ao rio Douro”. Um estava no Museu do Porto e outro no British Museum (A.h.M.B., CN/N-185).  


......1942

“La Chioglossa lusitanica Boc. est l'unique espèce du genre unique de la famille Chioglossidae, d'après quelques auteurs, de la famille Salamandridae, d'après quelques autres, de l'ordre des Urodèles. Elle a été décrite par Barbosa du Bocage et appartient exclusivement à la Péninsule Ibérique, où elle occupe la zone qui s'étend depuis la Galice jusqu'à l'Alentejo; on la rencontre aussi dans la Vieille-Castille.”

Ref.ª: Amílcar Magalhães Mateus, Contribution à l'étude des chromosomes de la Chioglossa lusitanica Boc. Publicações do Instituto de Zoologia “Dr. Augusto Nobre”, 12.

Obs.: Exemplares coligidos nos arredores de Valongo, onde Mateus levará Goux.  


......1943

Seabra diz que mandou introduzir em águas da Serra de Sintra alguns exemplares de Chioglossa do Buçaco para ensaio de repovoamento. Pelos vistos a primeira introdução falhara, havia que a duplicar. Hoje parece estar confinada à região de Valongo, poucos devem mater a tradição de repovoamento e povoamente de outros locais. De notar que Seabra diz sem hesitar que mandou introduzir a salamandra.

Além do Gerez, localidade típica da espécie, tivemos por várias vezes ensejo de verificar que não era muito rara nos pequenos ribeiros que atravessam a mata do Bussaco, e encontrámo-la igualmente com certa frequência no caminho da Serra de Goes que conduz à Sandinha. Verificámos também que tinha manifesta preferência pelas águas férreas e vivia em sitios frios e sombrios, procurando os pequenos veios de água límpida correndo por entre o arvoredo, nunca em águas expostas nem estagnadas.

Ref.ª: Anthero Frederico de Seabra, Apontamentos sobre a fauna do Algarve (Vertebrados). Memórias e Estudos do Museu Zoológico da Universidade de Coimbra, 147.  


......1943

“Segundo G. Boulenger, a chorologia da Chioglossa, que se pode considerar exclusiva desta parte restrita da Península, abrange a região da Galiza, ao N. e da Castela Velha, bem como o N. de Portugal, e torna-a extensiva ao Alentejo, o que será exagêro ou distribuição errónea, porquanto esta espécie não se encontra senão no N. do país e atinge apenas a região de Coimbra, não se notando a sua presença na Beira”.

Ref.ª: J. Bettencourt Ferreira, Revisão sistemática dos anfíbios da fauna portuguesa (Salamandridae e Ranidae). Memórias e Estudos do Museu Zoológico da Universidade de Coimbra, 144.

Obs.: Bettencourt Ferreira é aquele professor que deu uma lição sobre as diferenças geológicas, florísticas e faunísticas entre Espanha e Portugal. Refere-se agora a Boulenger (1910). Já se esqueceu dos 29 exemplares que Seoane enviou de Cabañas e atreve-se a contrariar todos os colegas. Toda a gente sabe que a Chioglossa (ainda) não foi encontrada no Alentejo, em Sintra, no Alfeite, no Rio Mattosinhos nem perto de Madrid. Mas daí a só aceitar a sua existência em Coimbra, na quinta de Rosa de Carvalho ou na choça do Ganganelli, em Coselhas, vai toda a distância da nossa perplexidade, acrescida a esta circunstância de que Coimbra deve ter passado a pertencer à região setentrional de Grândola, Vila Morena. Este Bettencourt Ferreira que só admite a existência da Chioglossa numa Coimbra que, a não pertencer à Beira, só pode ser californiana, é o mesmo que escreveu: sabemos que foi encontrada perto do Porto e de Oliveira de Azemeis, isto é, no norte de Portugal, conforme o previra Schreiber. É o mesmo que a referiu para Saudinha (em vez de Sandinha, sul de Góis) e Valongo, de acordo com as suas próprias observações, no artigo assinado com Seabra (1911).

Segundo o Anuário da Universidade de Lisboa (1915-1916, 1), Ferreira fora encarregado da Revisão das colecções gerais herpetológicas do Muzeu Bocage, contexto no qual se elabora o CGRA. Confrontando os catálogos publicados por ele e Bocage no séc. XIX com outros manuscritos, CGRA e catálogos publicados a seguir - só em 1971 (Crespo, na antologia), 1972 (29) e 1976 (30) -, verifica-se que Ferreira recuperou parte do material, entre o que não fora totalmente inutilizado, caso de espécimes-tipo de anfíbios africanos. Os da Chioglossa, não os conseguiu recuperar. Só em 1952 voltará a estar representada Chioglossa de Portugal no Museu Bocage.  Veja os Anexos. 

Em 1926, explodiu uma granada dentro do Museu, que destruiu parte das colecções (31). É impossível, nestas circunstâncias, admitir que Ferreira não soubesse que algo de muito estranho se tinha passado. Improvável que ignorasse qual a origem da Chioglossa. Mas a sua atitude nem por isso deixa de ser incompreensível: agindo como quem sabe, ele é no entanto um marginal ao grupo subversivo, que bem vemos manter coesão interna. As pessoas sustentam o jogo, não se desmancham e não se hostilizam entre si. Ferreira tenta desautorizar o Sumo Sacerdote da herpetologia do seu tempo, Boulenger, e muito pior ainda: imola-se a si mesmo.  


......1945

D'Alte descreve um exemplar de Chioglossa com cinco patas, dito do Carvoeiro (Viana do Castelo). Refere Saint-Hilaire filho, e casos semelhantes obtidos experimentalmente entre os batráquios. Discute se o monstro é duplo ou único. Cita um caso humano idêntico na ilha do Fogo, Cabo Verde.

Ref.ª: J. A. Martins d'Alte, Un cas de mélomélie chez la Chioglossa lusitanica Boc. Bulletin de la Société Portugaise des Sciences Naturelles, XV :10.

Obs.: Carvoeiro (antiga Carbona): a Carbonária chama-se assim porque os revolucionários começaram por se reunir numa carvoaria.

A partir de 1896 e por iniciativa do maçon Luz de Almeida, a Carbonária foi reestruturada, conhecendo notável expansão até cerca de 1912. Foi ela a principal arma civil republicana a quem se deve o triunfo da revolução de 5.10.1910 e a defesa da República nos seus dois primeiros anos de existência. Apoiada na Maçonaria, sobretudo em algumas lojas mais radicais e politizadas, como a Montanha, chegou a contar com 40.000 membros, especialmente em Lisboa e noutras cidades, visto que a sua difusão se mostrou essencialmente urbana (Oliveira Marques) (5).

Estamos em plena época salazarista, motivo pelo qual admitimos que se perpetuou a Operação Salamandra. A República, em que se tinham depositado as maiores esperanças, decepcionou toda a gente, por os objectivos sociais revolucionários terem sido substituídos pelo proveito pessoal. Não deve ter havido oportunidade para esclarecer melhor a situação, por isso foi reaproveitada como instrumento subversivo, já testado pela antiga tradição carbonária.  


......1957

Num ribeiro, perto de Oviedo, Goux observou Triturus boscai em período de postura e uma larva de Chioglossa. Uma larva a garantir a tomada das Astúrias. A Chioglossa, aliás a larva, acaba de saltar a fronteira da Galiza.

Em Agosto de 1955, em Valongo, encontra grande número de adultos jovens e outros mais velhos debaixo de pedras. Em certos lugares do regato, ses eaux roulent un limon ferrugineux qui rend la recherche des larves très difficile.

“Salto” do rio Sousa: “Je n'ai pas observé de larves de Chioglosse dans le Souza lui-même, par contre la salamandre est abondante sur les deux rives”. Goux insinua que se não há larvas no rio é porque estão em terra, o que pressupõe aspectos novos na biologia da reprodução. Distingue dois nichos. No segundo, em 1954, com Amílcar Mateus, recolhera 3 adultos e larvas; “en août 1955 je n'ai trouvé qu'un adulte (appartenant à la variété concolore) et des larves”.

Obs.: Ainda não foram descritas variedades de Chioglossa, e lembremos Boscá, ao informar que a variedade é fruto da acção humana. Estamos numa época em que já passou de moda a palavra variedade, agora só se fala de subespécies. Se Goux diz que encontrou Chioglossa lusitanica var. concolor, então há essa e muitas mais, a começar pela carbonaria e a acabar na viridis & ruber. A bandeira carbonária era verde e vermelha, com esfera armilar a ouro sobre fundo azul, e estrela de prata (José Brandão) (32). Com algumas alterações, a bandeira carbonária foi a que se adoptou com a República. Apesar de quem não gosta dela, continua a simbolizar Portugal.

No mapa de Goux, a Serra de Estrela, à l'est de Coimbra, fica ligeiramente a sul de Castelo Branco. Elle a été signalée, incidemment par Wolterstorff, Lantz et Herre de Fonsograda (à l'est de Lugo) (Fonsagrada sur les cartes). Elle est connue également de la Castille, au sud ouest d'Avila, dans le massif de La Serrota (sur la bordure nord de la Sierra de Gredos).

Goux está a ser ironicamente prolixo em matéria de geografia. O seu mapa da Península Ibérica, por muito que se desculpe do mau risco, é uma desgraça. Quanto a Wolterstorff, é um dos biólogos habitualmente referidos quando se historiam as experiências de hibridação. Autor da descrição de Triturus helveticus forma Sequeirai, dedicada a Eduardo Sequeira.

Goux profetiza que a Chioglossa será encontrada não só à altitude a que já fora - 100, 900 m - mas a maior ainda; e que o facto de ter sido encontrada (uma larva) perto de Oviedo, deixa supor que a sua área de distribuição se alarga ainda mais para leste, ao longo da cadeia dos Cantábricos.

De facto já foi encontrada mais para leste, ao longo da cadeia dos Cantábricos, onde Goux a deixou. Só nos perguntamos por que motivo ainda ninguém procedeu ao povoamento de Sintra, Elvas e Villatoro, em La Serrota. Ou não têm condições para habitat, ou é preciso salvaguardar o seu sentido imaginário, igual ao de Bioko no Atlântico Sul, para reafirmar pela eternidade adiante que o cientista, à imagem e semelhança dos artistas, também é um criador.

A propósito das muitas larvas encontradas na estação B2, escreve Goux: Ces larves ne peuvent provenir que de pontes effectuées sur place. Ces faits montrent que la population de cette station est autocthtone, qu'elle se développe sur place en dehors du ruisseau qui, quoique assez proche, ne joue pas ici de rôle immédiat dans la biologie de l'animal.

Se a população da estação B2 é autóctone, a progenitora podia não o ser. Lembremos Rosa de Carvalho, ao referir-se aos girinos encontrados nas águas de rega: não tinham vindo de outra parte para ali. Não, os girinos não vieram, mas parte do estoque genético dos progenitores é oriundo da Califórnia.

A Chioglossa exige muita humidade e oxigenação, a sua actividade é óptima a temperaturas cerca dos 10º, pode viver junto dos regatos ou nadar neles, mas é sobretudo um animal terrestre.

Diz Goux ainda que parece existir essencialmente uma geração de larvas correspondentes a posturas efectuadas no fim do inverno ou princípio da primavera. As larvas muito pequenas encontradas no Salto do Sousa a 25.12.1955 levantam um problema (andou a trabalhar no dia de Natal, dia em que nasceu o híbrido por excelência, metade humano e metade divino): deve haver segunda postura, outonal. As salamandras que diz serem semelhantes à Chioglossa são Batrachoseps attenuatus, da família Plethodontidae, e Mertensiella caucasica.

Ref.ª: L. Goux, Contribution à l'étude écologique, biologique et biogéographique de Chioglossa lusitanica. Bulletin de la Société Zoologique de France, 82.


 ......1959

Almaça não refere os exemplares de Chioglossa existentes ou não no Museu Bocage. “Deve-se a Barbosa du Bocage a descrição do género Chioglossa e da espécie C. lusitanica como entidades taxonómicas novas para a Ciência. O material sobre que baseou as suas diagnoses, foi colhido na Serra do Buçaco”. Parágrafos adiante: “Por exemplo, na Serra do Buçaco, local em que primeiro foi encontrada a espécie, voltou a ser encontrada até muito recentemente”.

O autor lista as localidades coligidas na bibliografia e acrescenta as suas. Não refere Sintra nem Villatoro. Para Coimbra, cita Boscá e outros autores, mas omite Bocage. Anota que Ferreira & Seabra (1911) e Álvarez Lopez tinham omitido Elvas.

Ref.ª: Carlos Almaça, Uma espécie que devemos proteger: a Chioglossa lusitanica Boc.. Protecção da Natureza, N.S., 1.

Obs.: Acreditamos que Almaça não tem a intenção de desautorizar Bocage ao dizer que os tipos eram do Buçaco. Não deve ter lido a descrição original, está a citar em segunda mão. E não leu porque o trabalho não existia certamente nesse tempo na biblioteca do Museu Bocage. No Museu Bocage não houve só acidentes com exemplares, também têm vindo a ocorrer com documentos. O que nós lemos foi uma fotocópia do artigo saído em Londres. É isso o que existe no Museu Bocage - uma fotocópia, pedida talvez por Eduardo Crespo no final dos anos sessenta a uma biblioteca estrangeira.

O artigo mencionado na bibliografia de Almaça é o que saiu em Paris:  “Note sur un nouveau Batracien du Portugal Chioglossa lusitanica et sur une Grenouille de l’Afrique occidentale Rana Bragantina. Rev. et Mag. de Zool., t. XVI, p. 248, pl. 21”, 1864.

Rana bragantina, da qual se esperava que fosse só angolana (Duque de Bragança), tem na sinonímia duas espécies domésticas, de larga distribuição noutros continentes: Rana tigrina, usada em campeonatos de salto com outras “Bull-frogs” - as pessoas apostam dinheiro nela. Além disso, está na base de um comércio alimentar especializado - na China. A outra, Rana esculenta, a rã europeia também objecto de comércio alimentar, é oficialmente um híbrido. Híbrido é igualmente o colector de Rana bragantina, cujo nome, Pinheiro Bayão, Bocage redige na língua das aves: "M. Periheiro Bayão".

Obs.: Ficha de Rana bragantina - Hoplobatrachus occipitalis (Günther,1858) - na lista das espécies de Bocage, em http://hybris.no.sapo.pt

Em Londres, ao artigo sobre a Chioglossa seguia-se outro de Bocage sobre a esponja Hyalonema lusitanica, ainda não encontrada em Setúbal, e descrita a partir de um fragmento basal: http://hybris.no.sapo.pt

A animais com estas funções, atribui Boscá o nome vulgar de tiro e sacre - artilharia. Newton chama-lhes canhoneiras. Nas sinonímias, outros listam-se como nomina nuda. Mas nem tudo o que parece ataque e contra-ataque o é. Realmente, a batalha naval parte sempre da cumplicidade:

- Thyro Agassiz, 1844, Reptilia, nomen nudum!

- Thyrus Gray, 1845, Reptilia, género novo!

Foram dois tiros aliados num mesmo couraçado cuja bandeira ainda não identificámos.  


......1963

“Na encosta desta serra, lugar das Águas Férreas, corre o regato denominado ‘ribeiro do Inferno’ [...]. A nós, da terra lusitana, compete informar da vida deste urodelo que permitiu a Bocage estabelecer, incontestàvelmente, uma boa espécie distribuída na Península, mas quase exclusiva de Portugal”.

Ref.ª: Lopes Gonçalves, A reprodução de Chioglossa lusitanica Bocage. Naturália, 19-20.

Obs.: Lopes Gonçalves descobre ovos da Chioglossa, por consequência o seu modo de reprodução: ovípara. Desde pelo menos 1886 que se sabe que a Chioglossa é ovípara. Bocage soube isso logo em 1866, o António das Salamandras não ia inventar que tinha visto os ovos. Eles dizem sempre a verdade, nós, leitores, é que podemos não saber de que verdade ao certo estão eles a falar. Para todos fingirem ignorar qual o modo de reprodução, é porque algo está ainda para acontecer de muito extraordinário. A Chioglossa resulta do cruzamento de animais com modos de reprodução diferentes, como também parece ter acontecido com os lagartos gigantes de Cabo Verde, Macroscincus coctei. Eram ovíparos, mas Boulenger disse que, no seu tempo, todos os lagartos daquela família (Scincidae) que se conheciam eram ovovivíparos. Ele não aceita como real dado modo de reprodução, portanto sabe que o dominante é outro e está ainda para se manifestar. É natural, no caso da Chioglossa, oriunda de uma ex-colónia britânica. Boulenger tinha conhecimento do que se passava nos jardins de aclimatação anexos ao British Museum e no Museu de Tring. Há dois ovos do Macroscincus coctei no British Museum, entregues pelo Museu de Tring em 1960. A espécie foi dada como extinta na primeira década do nosso século.

É neste ponto que reside para nós a enorme importância biológica da criação, porventura algo de mais surpreendente ainda que a criação da Dolly.

Há salamandras ovíparas e outras que dão à luz quer larvas quer jovens já completamente formados. No caso de Batrachoseps attenuatus (Plethodontidae), a espécie parente da Chioglossa referida por Goux, não há fase de larvas aquáticas: a fêmea põe ovos nas fendas ou debaixo das pedras, as larvas metamorfoseiam-se completamente dentro dos ovos e quando eclodem são adultos em miniatura.

Goux informou que não tinha visto larvas na água no rio Sousa, donde Aellen deduzirá o que já sabemos: naquele local, as larvas são terrestres. Portanto nem todos os animais se reproduzem da mesma maneira, o que só conseguimos entender num contexto de hibridação artificial. 


......1963

Na querela com Ricardo Jorge (31), ao suceder-lhe na direcção do Museu Bocage, Serra (34) queixou-se da geral falta de tipos e colecções destruídas, mas nenhuma investigação se fez para averiguar o que se tinha passado, ou então não foi dada a público. Entre os argumentos de defesa de Ricardo Jorge, refere ele que em 1926, no curso da revolução, explodiu uma granada dentro do Museu, que destruiu parte das colecções. Já vimos que a destruição começou muitos anos antes.

Este trabalho foi feito a partir das colecções do Museu de Coimbra. Reprodução: parece ter lugar na água durante o fim do inverno e princípio da primavera. Não especificam habitat: Este género compreende na Europa uma só espécie, até agora encontrada apenas em Portugal e Espanha.

Ref.ª: José Antunes Serra & Rolanda Albuquerque, Anfíbios de Portugal. Revista Portuguesa de Zoologia e Biologia Geral, 4.  


......1965

Aellen coligiu na Serra do Marão, e como vemos todos os zoólogos têm a felicidade de descobrir a salamandra em locais novos para a ciência. “Comme chez Hydromantes et Salamandrina, il n'y a pas de poumons. On ne sait pas encore si le chioglosse pond des oeufs ou met ses petits au monde vivants comme la salamandre tachetée [...] il peut y avoir deux générations par année”.

Ref.ª: V. Aellen, Le chioglosse du Portugal, l'une des plus rares salamandres d'Europe. Musées de Genève, 56.

Obs.: Aellen considera aberrante o biótopo no Salto do Sousa mencionado por Goux: as larvas, com brânquias, em vez de se desenvolverem na água, coabitam com os adultos na erva e musgo saturados de humidade. Por conseguinte, são larvas terrestres; não é o habitat que é aberrante, sim o facto de entre animais da mesma espécie haver diversas formas de reprodução.  


.....1968

“Merece particular menção o Gén. Chioglossa, de que só é conhecida a espécie C. lusitanica, endemismo lusitânico (no sentido zoogeográfico de Cabrera, 1914) sem afinidades próximas no mundo actual.”

Ref.ª: C. Almaça, As peculiaridades da fauna ibérica (Vertebrados terrestres). Revista da Faculdade de Ciências de Lisboa (2), C, XV: 2.

Obs.: Ao contrário de Paulino de Oliveira, Goux e Aellen, que estabelecem estreita afinidade entre a Chioglossa e as salamandras da família Plethodontidae, Almaça considera-a uma relíquia. 


......1971

Exemplares no Museu Bocage da Serra do Gerês, Resende e Buçaco. Nenhum de Coimbra. Os mais antigos são de 1952, sabendo nós que em 1915 não havia exemplares de Portugal na colecção, só existiam os da Galiza enviados por Seoane. Crespo não refere o desaparecimento dos tipos nem dos outros exemplares da colecção antiga. Para outras localidades, compilou bibliografia, que lhe permite estabelecer um quadro de distribuição nacional: Minho, Trás-os-Montes, Douro Litoral, Beira Alta, Beira Litoral, Estremadura (Serra de Sintra - introduzida), Alto Alentejo: Elvas, e Alentejo em geral. Como habitat menciona ainda Localidade Indeterminada - Ribeira de S. Paulo, referida para os arredores de Coimbra pelo criativo Moller.

Em face dos dados recolhidos, cremos poder concluir que esta espécie tem preferência pelos relevos da faixa litoral do Norte do país. Os locais onde se têm efectuado mais colheitas são as Serras do Buçaco e do Gerês. Não há qualquer menção a colheitas realizadas para Sul de Elvas, sendo até, este local, uma referência isolada a Sul do Tejo.

Ref.ª: Eduardo Gonçalves Crespo, Anfíbios de Portugal continental das colecções do Museu Bocage. Arquivos do Museu Bocage (2) III, 8.  


......1973

Crespo afirma que a distribuição da Chioglossa é circunscrita, que há uma citação de Boscá para Elvas, mas que nunca ali a encontrara nem há exemplares do Alentejo nos museus. Pela primeira vez, anota-se a falta de um exemplar de Chioglossa nas colecções do Museu Bocage. O exemplar de Elvas estava no Museu da Politécnica. Menciona espécimes do Gerês e Buçaco e continua a não dar pela falta dos tipos nem do enviado do Porto pelo Barão de Soutelinho.

Ref.ª: E. G. Crespo, Sobre a distribuição e ecologia da herpetofauna portuguesa. Arquivos do Museu Bocage IV, 11. 


......1975

Com animais do Bom Jesus de Braga, espaço de intervenção de Eduardo Boscá, Viegas & Crespo estudam as proteínas séricas da Chioglossa. Resultado do teste: a banda correspondente à albumina humana apresenta-se desdobrada-dupla. Interpretação: “Em Chioglossa lusitanica a hipótese do hibridismo interespecífico fica logo posta de parte dado o seu ‘distanciamento’ taxonómico (única representante do género) e isolamento geográfico”. Os autores comparam com a banda desdobrada-dupla de Rana esculenta, considerando os casos diferentes, pois Rana esculenta é um híbrido. Também a tigrina, a Chioglossa, e até a truta marinha.

Ref.ª: Ana Maria Viegas & Eduardo Gonçalves Crespo, Acerca das proteínas séricas de Chioglossa lusitanica Boc. Estudos sobre a Fauna Portuguesa (Museu Bocage), 10.  


......1979

O Museu Bocage continua a enriquecer-se com exemplares do Gerês, espaço de intervenção de Heyden, Moller e A. Tait. Vários zoólogos ligados ao Museu Bocage e nenhum se interroga sobre o significado da inexistência das colecções antigas.

Ref.ª: Maria Helena Caetano, Maria Manuela Coelho, Carlos Almaça & Maria João Collares-Pereira, Notes sur l'écologie des Amphibiens et Reptiles du Parc National de Peneda-Gerês (Portugal). Arquivos do Museu Bocage (2) VII, 2. 


......1979

Fertilized eggs are laid by the female in swiftly flowing currents. The larvae are long and thin, with short legs and a very long tail wich has a broad, fin-shaped edging.

Ref.ª: Jirí Cihar, A colour guide to familiar Amphibian and Reptiles. Octopus, London.

Obs.: A imagem da Chioglossa fornecida por este autor talvez corresponda à var. concolor de Goux, visto que é rosada. Meio caminho andado para o ruber & viridis da bandeira carbonária.  


......1981

Longo trabalho sobre centenas de exemplares estudados na região do Ribeiro do Inferno e mina das Águas Férreas, espaço de intervenção de Sequeira, natural de Penafiel, e de Antero Frederico de Seabra. Uma nota apenas: observada uma larva completamente negra, que devia viver na água havia muitos anos.

Refª: J.W. Arntzen, Ecological observations on Chioglossa lusitanica (Caudata, Salamandridae). Amphibia-Reptilia, 3-4.

Obs.: Barbadillo, no trabalho que vem a seguir, refere casos de albinismo na Chioglossa lusitanica. A selecção artificial facilita o aparecimento de indivíduos anómalos, como o que d’Alte estudou, com duas patas anteriores direitas, uma sob a outra. No caso vertente, a larva negra que não se conseguiu metamorfosear é outra anomalia. A função das dimensões aberrantes fornecidas pela Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira era a de chamar a atenção para este facto. Uma salamandra destas com 14 cm de comprimento de corpo mais 10 cm de cauda é um monstro.

A desproporção, uma vez que nos indivíduos normais a cauda é duas vezes maior que o corpo, lembra-nos um pormenor que é preciso referir: a autotomia e regeneração da cauda. Nos lagartos, acontece haver espécies cuja cauda tem pontos de fractura natural fácil, para os animais poderem largá-la na boca de algum predador e escaparem com vida. A cauda depois volta a crescer. Este fenómeno não é vulgar nas salamandras, só se conhece na Chioglossa, na Mertensiella caucasica e em espécies da família Plethodontidae.  


......1987

Distribución: Endemismo ibérico cuya área de distribución incluye Galicia, Asturias y mitad norte de Portugal. Existe una cita sin confirmar para la província de Avila.

Refª: Luis Javier Barbadillo Escriva, La Guia de INCAFO de los Anfíbios y Reptiles de la Peninsula Iberica, Islas Baleares y Canarias. Madrid.

Obs.: Barbadillo pode não reflectir conhecimento da Operação Salamandra, mas conhece perfeitamente Lataste, visto que recusa a espécie Discoglossus galganoi (35) (sapo parteiro), argumentando que Lataste já a descrevera no seu tempo com o nome de D. hispanicus. Lataste o que descreveu foi o aparelho sexual café com leite de Alytes obstetricans boscai. Discoglossus hispanicus é um nomen nudum, criação de Barbadillo para não ter de revelar claramente que os sapos parteiros são o mais crítico grupo de anfíbios na Península, a seguir à Chioglossa.

Lataste (36), além de descrever as demás partes (são internas) e de tocar no cheiro a alho com o bisturi, também corta com o escalpelo os vagidos da espécie recém-criada, e note-se que ele profetiza uma espécie (binómio - Alytes Boscai), embora classifique a forma como subespécie (trinominal - A. obstetricans Boscai): “le testicule se montre arrondi et blanc chez ce dernier, tandis que je le vois chez l’autre légèrement oblong et de couleur indifféremment blanche ou noirâtre (dans un cas, le droit est blanc et le gauche noirâtre; dans un autre cas, c’est l’inverse qui a lieu). Evidemment il n’y a pas à insister sur des caractères de cette nature. Mais, en me livrant à cet examen, j’ai pu constater que, sous le scalpel:

A. Boscai  ne répand pas cette odeur vireuse dont A. de l’Islei  est prodigue en pareille occasion;

2º Ce dernier demeurant silencieux ou émettant à peine quelques sons faibles et flûtés, très semblables à son chant normal, A. Boscai au contraire ne cesse de pousser des cris faibles et plaintifs, assez comparables (sauf l’intensité) au vagissement d’un enfant nouveau-né”.

Obs.: Sob o escalpelo, barriga aberta e as demás partes expostas, o que Lataste faz  ao sapo é uma autópsia. Não porém a um cadáver qualquer, sim a um cadavre exquis, bem surrealista: apesar de completamente morto, já solta vagidos de recém-nascida criança. Conta-se que alguns dos acompanhantes do explorador austro-húngaro-polaco da armada russa Rogozinski/Rogozinsk e esposa, na penosíssima ascensão ao Pico de Santa Isabel, eram um bubi natural de Mea e as suas duas esposas. Não conhecemos a localidade Mea em Fernando Pó, só conhecemos Banterbari e sítios afins. O dicionário, porém, informa que mea é o que balbuciam as crianças espanholas quando querem fazer chichi. É com a criança, mesmo com a má creança, que o naturalismo cura da criação.

Lataste é uma pessoa tão cristalina como Boscá. A esta forma recém-criada, Alytes obstetricans boscai Lataste, aliás a este texto fruto da sua boa criação, é que Barbadillo chama Discoglossus hispanicus. 


.....1997

As antigas minas de ouro romanas, na região de Valongo, são as áreas mais importantes da Península Ibérica para a conservação da salamandra-lusitânica.

Ref.ª: Mário de Carvalho, Salamandra em perigo. Expresso, Revista, 19 de Abril.

Obs.: Muito desejamos que a Chioglossa continue abrangida pelos programas de conservação. Temos notícia de rochedos envenenados nas Canárias para eliminar lagartos de espécies críticas. Já houve acidentes que cheguem e não se vê por que motivo não hão-de as espécies criadas pelo homem ser respeitadas, admiradas e estudadas, tanto mais que a Chioglossa é uma criação biológica de alto valor científico. Mau seria que a “extinção” impedisse os biólogos de a virem a conhecer em profundidade, como aconteceu com o Macroscincus coctei de Cabo Verde, “extinto” antes de a ciência normal o ter estudado convenientemente.
...........P.S. A espécie está sob protecção legal com o nome de Chioglossa lusitanic, provavelmente por correr sérios riscos de naufragar, como o Titanic.