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.............ROMEIROS, EXPLORADORES E TERRORISTAS 

Foi no dia da romaria que Boscá explorou S. Julian de Tuy, à saída de Portugal, e sobretudo à despedida do Bom Jesus de Braga, em cujo escadório viu os sapos parteiros aos pares. Iam certamente a rezar. Andam sempre aos pares, diz ele. Diz ele que foi nos patamares do escadório que melhor observou este costume dos sapos parteiros, apanhou-os em plena peregrinação.

Apesar destas descrições jocosas, em certos momentos, com Boscá e Seoane, o colorido da romaria desaparece, fica só esse toque frio do ferro (macho). Uma advertência, ou ordem para malhar no ferro quente. Oliveira Marques (7) informa que José Vicente Barbosa du Bocage (director do Museu Nacional de História Natural de Lisboa) foi um regenerador, a dada altura Venerável da Loja Regeneração Social, da Confederação Maçónica Portuguesa. O partido regenerador era monárquico, brando e conservador. Os espanhóis costumam ser mais explosivos do que nós. Do outro lado da fronteira, Bocage tinha como interlocutores provavelmente mais carbonários, que por dever andavam armados. E eis que o quadro pitoresco se nubla e esfria, Bocage sente um calafrio, recusa-se a admitir que viu o que lhe trouxera o correio. Esta salamandra é perigosa, fere como baioneta. Ela é o ferro e Santiago! sempre foi grito de guerra.

No conjunto, os textos constituem uma polifonia, universo anarquista em que os autores conversam, se zangam e mandam recados uns aos outros, prestam informações novas dizendo citar (e os pseudo-citados nunca desmentem, prova de que há conspiração), agradecem como quem escarnece, o que resulta num intertexto muito provocatório, por se situar numa área que hoje não se admite que possa ser voluntariamente ficcional. Há no entanto legitimidade científica para a ficção: se a espécie se concebe como grupo razoavelmente homogéneo e estável de indivíduos, o mundo dos híbridos é instável e heterogéneo.

De um lado o cosmos, de outro o caos. A informação caótica sobre a Chioglossa revela a sua natureza híbrida. Hybris é paixão, excesso, transgressão das normas, monstro e carnaval. Quando a salamandra for olhada de soslaio pelo macho de velado, entraremos no carnaval. Também ela é um travesti.

É perturbador o que vai ler, pois já não estamos habituados a lidar com textos científicos dotados de componentes literárias - humor, ironia, hipérbole, metáfora, efabulação. A verdade da arte não costuma ser epidérmica, há que a buscar em zonas profundas, as da afectividade. Vai entrar numa guerra, há causas importantes a defender - acabar com a escravatura, libertar as colónias, pôr fim a uma monarquia decadente -, e a bem ou a mal os ideais serão conquistados. O papel que a ciência se reservou na luta é determinante, e originais os métodos que adopta, por serem só os seus. Não temos aqui cientistas a serem manipulados pelo poder político, temos cientistas a usarem o seu próprio poder (o conhecimento) para sabotarem as decisões políticas.

O mais desconcertante é o segredo não ser completo. Se nós sabemos, e nós nem sequer somos zoólogos, foi por termos sido informados pelos próprios autores. Não foi descrita nenhuma Chioglossa lusitanica var. concolor, tal como não existe nenhuma família Chioglossidae, por exemplo. Quando nos aparecem cientistas a falar dessa variedade, e logo concolor  (é na cor que os híbridos mais mutam) e a incluir a Chioglossa numa família imaginária, ficamos a saber que a espécie é crítica. Só quem sabe da dupla origem familiar pode permitir-se tal ironia. Não sendo ironia, só pode ser necessidade de revelar à comunidade científica a verdadeira origem da espécie. Duros e combativos, mas honrados. Eles só dizem a verdade, simplesmente codificam-na. Guerra é guerra, quem não conhece o código fica à mercê das minas - e muitos anos depois.

Catálogos de vários museus de História Natural da Europa acusam o misterioso desaparecimento de tipos ou a sua destruição - os da lagartixa das Baleares descritos por Müller, diz-se que foram abatidos durante a Segunda Grande Guerra, por causa de uma bomba que caiu em sua casa (2). Aliás, nas Baleares, não se bombardeiam só os animais, os ilhéus também sofrem. O das Ratas foi dinamitado para construção de um porto, de modo que o estatuto da subespécie que lá vivia é o de presently non existent (2), o que é algo diverso de extinta. Ainda pode ressuscitar. Noutro ilhéu, claro.

Porque se destroem tipos e outros exemplares? Os caracteres não se fixam, porque se classificaram combinações de caracteres, dominantes ou recessivos, e na natureza os animais deixam de corresponder a tipos e descrições. Destrói-se o que não tem valor para dado paradigma científico: espécies introduzidas estão onde as pusermos, por isso não interessam à zoogeografia. A zoologia pretende estudar os animais em estado natural, os que evoluiram por selecção natural, por isso não têm valor para ela os híbridos artificiais.

Nos museus portugueses, tem havido acidentes. As colecções herpetológicas do Museu de Lisboa (ou Museu da Politécnica) foram destruídas quase totalmente pelo próprio fundador do que hoje é o Museu Bocage.

 Agora um aparte, quando levava para casa do Sr. Ducloux a caixa, perguntou-me uma pessoa o que era ao que respondi objectos de História Natural para o Museu de Lisboa - ele disse-me que isso seria lançado ao lixo, pois que depois da morte do Sr. Arruda Furtado (creio eu) ninguém aí se importava disso - isto porém é confidencial - pois sei bem que tal não é o caso - contudo entendo dever pôr V. Exª ao facto disto (Carta de Isaac Newton, sem destinatário, Porto, 25 de Outubro de 1890, Arquivo histórico do Museu Bocage, CN/N-152).

 Bocage deixou de controlar o seu conhecimento quando viu a que escala a ciência normal tinha sido ludibriada pela extraordinária. Entre outros documentos que comprovam o facto, existe no Arquivo histórico do Museu Bocage um manuscrito inédito (ver anexos, CGRA) precioso por vários motivos. É um texto com informação residual, mandado elaborar com o propósito de que permanecesse como documento histórico: o que lhe falta (nomes de espécies, localidades de colheita, datas de colheita, colectores ou ofertantes) mostra o que se destruiu, em confrontação com os catálogos anteriormente publicados. Entre os resíduos, figuram informações muito reveladoras, algumas das quais teremos oportunidade de ver.