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À COVA ESCURA, MEU ESTRO VAI PARAR DESFEITO EM VENTO


O leitor sente-se insatisfeito, é compreensível: não falámos sequer dos comunistas.

Este livro pode ser útil à história das origens do comunismo em Portugal, modos de actuar dos carbonários e anarquistas e em que estratos sócio-culturais, mas o nosso objectivo, neste primeiro ensaio sobre espécies críticas, era provar que há espécies críticas. Para provar que há espécies críticas foi preciso dar a palavra aos próprios naturalistas - sejam eles comunistas, monárquicos, progressistas, judeus ou católicos.

Não mostrámos em que situações concretas foram usados os manipulados genéticos como forma de chantagem para se obterem dividendos políticos. De um lado, ainda não sabemos, isso exige pesquisa histórica no campo da minúcia e dos bastidores da política. Exigia também que já estivessem publicadas obras ricas de informação sobre a Carbonária e quem foram os carbonários - há quase nada. Sabem-se factos gerais - havia carbonários anarquistas e uma choça da Marinha, a dado passo quase todo o Exército pertencia à Alta Venda, os militantes distribuiam-se por todos os estratos sociais, desde os operários aos professores, aliás Buiça, o carbonário regicida, era professor.

Uma mudança radical de regime é uma revolução, obviamente para ter sucesso necessita de larga base de apoio, e em especial de quem dispõe de armas - uma, o conhecimento, tem a mais alta sede institucional na Universidade. Tudo isto são no entanto generalidades, continuamos sem saber de factos concretos que possam relacionar-se com a acção de pessoas concretas.

Supondo que soubéssemos, revelar em que momentos o governante cedeu a pressões não adiantava nada aos nossos propósitos - chamar a atenção para a fauna e para os naturalistas e não para a política e para os políticos. Além do mais, as espécies realmente devastadoras são as africanas. A Chioglossa é só a canhoneira Salamandra, com apenas uma boca de fogo.

Ocorre-nos ao espírito que Pinheiro Chagas (8) remata o capítulo IX da sua cronologia dizendo que Bocage felizmente tinha estado pouco tempo na pasta da Marinha; que no capítulo X terá a espinhosíssima tarefa de contar os feitos políticos de Bocage. Nós também reservamos as últimas páginas para falar dele.

Bocage poeta deve ter influenciado os carbonários, o Commercio do Porto e Pinheiro Chagas. Realmente, no capítulo X, o nome de Bocage não é sequer mencionado. O texto abre com o relato asséptico do caso da construção do caminho de ferro entre Ambaca e Lourenço Marques, no qual desempenhou acção diplomática o filho de Bocage, Carlos Roma, cujo nome também não é referido. Mal conduzida a operação financeira, as consequências foram desastrosas.

Ficarão para outra vez as histórias do mapa cor-de-rosa, das explorações promovidas pela Sociedade de Geografia para concretizar o sonho desse mapa, a do Ultimato e Tratado com a Inglaterra - fim do sonho.

Mas sonho de que Portugal e de que portugueses? Não é Francisco Newton quem propõe ao ministro do Ultramar que estude as doenças coloniais? Essas doenças coloniais não eram a do sono, a papeira, a sarna e a elefantíase? Nem todos os portugueses estavam interessados em aumentar o império ultramarino, nem todos sonhavam com mapas var. concolor. Mais império para quê, se o elefantino que já tínhamos morria, dormindo e coçando-se?

O Ultimato foi uma derrota da política externa e um escândalo nacional. Sim, mas não foi ele uma das causas próximas da República? Não é a partir dele que toda a gente, desde o soldado ao ferroviário, desde o comerciante ao professor universitário, pronuncia senhas como Jasmim para assistir a reuniões em choças e barracas? Não será lícito então pensar que há fracassos internacionais que os nacionais provocam, para daí lograrem maiores vantagens políticas? Não será legítimo então suspeitar que na verdade o que o Ultimato foi, foi uma grande Barraca?

Ficará também para outra vez a história do comboio, que é tão pouca-terra, pouca-terra. Tudo questões de política europeia em África que exasperavam até ao delírio quem sofria na carne - e não na fotografia - as doenças de África, e quem vivia sufocado no irrespirável espaço metropolitano, com a miséria aos cantos, o analfabetismo, os conselheiros Acácios impantes de papeira, o país economicamente de rastos, a suportar a mais dispendiosa casa real da Europa. Um país que sofria de elefantíase, a querer mais elefantíase ainda.

Os ferroviários desempenharam papel importante na Operação Salamandra. É uma homenagem que lhes faz a ciência extraordinária aludindo a encontros com a Chioglossa na estação, às águas férreas, ao limon ferrugineux. O ferro é a força, metal pobre, mas sólido - o operariado. Matéria a transmutar. Ele também um instrumento de transmutação.

Esta sociedade industrial crescente, ou este comunismo nascente foi à alquimia beber a sua linguagem secreta. Além da via seca e da via húmida, agora a via férrea é uma via de transmutação nova, aquela que o progresso tecnológico e a modernidade põem à disposição dos novos construtores de templos, pontes sobre o D’ouro, Palácios de Cristal, máquinas a vapor, observatórios meteorológicos, cabo submarino.

Há uma grande sede de instrução pública, única via eficaz para alcançar o vértice da pirâmide, ponto mais próximo do Sol. A pirâmide é símbolo por excelência da Opus magnum da pedra. Tem quatro faces triangulares, podia assentar sobre qualquer uma, são iguais. São iguais. Neste são iguais delineia-se toda a estratégia para liquidar de vez essa vergonha que era a escravatura. E os privilégios do sangue azul.

Em pano de fundo, transluz nesta história uma outra, feita de associativismo iniciático, solidariedade, aspiração à igualdade e à liberdade. Ela vem de muito longe, não nasceu agora, tem as raízes mergulhadas muito fundo na história do homem. Porque desde sempre, na história do homem, houve opressores e oprimidos, ciência institucional e livres pensadores, manilhas e martelos para as quebrar.

A Obra deixa a pedra e passa a outros materiais de construção - eis a matéria viva, orgânica, com a qual se podem criar novos seres, eis o ferro nos seus aéreos arabescos ou a unir com duas linhas paralelas as cidades isoladas e os países distantes. O comboio é macarronésio, universal - une, dissipa diferenças sociais, estabelece o diálogo, facilita a comunicação entre os povos. Toda a terra parece pouca a essa comprida lagarta capaz de transportar um exército - mas nem por isso o construtor deixa de ser pedreiro, pelo contrário - bem junto à Opus magnum, começa a erguer-se a voz do operário.

Se a introdução da Chioglossa foi bem sucedida, deve-se isso à solidariedade dos novos construtores - os biólogos, os ferroviários. Outras espécies viajaram de comboio, porque era preciso - era preciso promover o desenvolvimento agrícola, vencer os insectos nocivos. Os sapos tiveram honras de campanha educativa nas escolas. Assinaram-se convenções internacionais para os proteger, ficaram sujeitas a penalização as pessoas que destruíam os sapos, os espetavam em paus nas hortas como espantalhos. As crianças foram educadas - não deviam atirar pedras aos sapos nem estripá-los. Os sapos vendiam-se aos lavradores, existia um comércio regular de animais vivos, benfazejos à agricultura.

Motivo de insatisfação para quem conheceu este livro antes de publicado, e com versão mais reduzida - o de não tomarmos posição face ao que se passou. Há questões éticas que se levantam, a exigirem que se trace uma fronteira entre o Bem e o Mal. Isso não é viável agora, há mais de um século de pessoas envolvidas, o problema é excessivamente complexo e delicado.

Um dia, quando conhecermos melhor as motivações que levaram os cientistas a agir como os vemos agir, poderemos tomar posição mais radical, se o julgarmos útil. Mas o único debate ético que nos interessa é o do direito do homem à Criação, a esfera religiosa dos factos. De outra parte, o leitor tem capacidade para livremente decidir entre o que entende ser correcto e incorrecto. Pela nossa parte, entendamo-nos noutro ponto crucial: quem assina este livro é um químico e uma escritora. Esta, com largas provas prestadas no âmbito da crítica literária - análise de texto foi o que se fez. Tomar posição ética num caso que incide directamente na herpetologia, exigia a presença de um co-autor herpetologista. Podendo estar - ele não está aqui.

Presença ausente. A posição, desse lado, insere-se no paradigma do natural - a natureza é vista como se o homem não existisse, não construísse pontes e templos, não vendesse sapos às sacadas, como se os animais habitassem o Jardim do Éden antes da criação de Lilith e Adão e Eva.

A presença presente não parte de tais princípios, habita um mundo cultural, marcado pelo homem centímetro a centímetro, ao longo da via férrea e do cabo submarino. Esta presença está colada ao texto, habita o texto, sabe que o Homem está dentro do texto, abre a orelha às palavras até ouvir a gralha - a gralha, essa ave falante: Pica pica var. typographica. A ciência é discurso e quem o profere é o homem, não o sapo parteiro nem a Chioglossa. Como, então, adoptar metodologias científicas que excluem o homem como criador de ciência e criador do mundo que habita? Como estudar os animais vivos de hoje na suposição de que existem na utopia de um tempo anterior a Adão e Eva?

Para qualquer lado para onde se volte, esta presença, que é o Homem, encontra a marca do Homem. Como, então, admitir que a Terra possa ser estudada como se o Homem não existisse, não estivesse aqui, a ensinar e a aprender?

Esta presença senta-se numa praça lisboeta a observar os pombos e a velha senhora que dá de comer aos pombos. Juntam-se centenas de pombos - há-os brancos, negros, e entre o albino e o melânico toda a gradação possível de cores. Esta presença sabe que está em presença da criação humana, não podendo, nestas circunstâncias, partir do princípio de que tal variedade de pombos existe desde há milhões de anos, fruto de selecção natural. Esta presença admira a criação humana, não entende que a criação humana possa ser objecto de repúdio em favor de uma criação do Acaso. Não compreende que se privilegie a selecção natural, e ainda menos compreende um paradigma científico que toma como objecto exclusivo de estudo o fruto da selecção natural, sem à partida especificar quais os meios experimentais para o distinguir dos frutos da selecção artificial. Esta presença parte do princípio de que na Amazónia ou no centro de Bornéu podem existir zonas que o homem ainda não logrou alcançar - e aí, sim, haverá animais e plantas em estado natural. Mas mesmo aí, para aplicar a esses animais e plantas as metodologias do paradigma científico do natural, é preciso saber primeiro como se distingue o natural do artificial.

Tomar posição relativamente a quê ou a quem? Desde a primeira linha ficou claro que estamos do lado dos criadores - aceitámo-los como nossos pares, solidariamente, sem hierarquizar, como se fossem poetas e romancistas. Comentámos os textos sem distinguir entre literário e não-literário. Listámos nomes de animais e de terras como se fossem poemas dadaístas.

Muito ficou por dizer, é certo. Não nos escusámos porém a tomar partido. Estamos do lado da ciência extraordinária, aceitamos a sua criação como obra da Grande Arte e esperamos que continue a ser protegida.