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CIÊNCIA E SUBVERSÃO : 8. BRINCANDO COM A TZÉ-TZÉ



Devo informar que tencionava acabar com estes sermões, exposto um método - veja "O gaio método", no sector de História e Filosofia das ciências - e apresentadas cinco categorias de subversão - geográfica, nomenclatural, biográfica, anatómica e amorosa -, porque, como lhe disse, a categoria é parca, por isso as subversões obedecem invariavelmente ao mesmo raquítico padrão, e nem o facto de o meu caro Vírus Nimda se ter tornado o meu interlocutor favorito ilude este tédio de uma guerra em que os soldados variam, variam os locais de combate, mas, faça sol ou faça vento, a táctica é sempre a do triângulo, venha ele na singeleza de um três ou mais sofisticado na forma dos seus múltiplos, e o grito de guerra raramente é "Santiago!", sim mais vezes "S. João!".

É uma seca para um escritor, mais ainda para um crítico literário, comentar sempre o mesmo tipo de recursos literários. Acha que isso é próprio do estilo e da tradição? Lá Tradição, é, e mais que estilo, é obediência a formatos, mas isso não adoça o que amarga.

Então porquê continuar? Olhe, porque é preciso. E porque desta vez não achei graça nenhuma e cada vez acho menos à paródia. Cada vez me parece maior a cobardia de quem está ao corrente e continua a encobrir e a passar o triste testemunho, só pela inércia de salvaguardar fundamentalismos científicos cuja única utilidade é a de assegurarem um bom ordenado. Uma coisa é introduzir e hibridar milho, trutas e sapos, benéficos para a humanidade, mas já começa a ser inquietante que se brinque com serpentes venenosas, como é o caso da mamba de S. Tomé, e francamente aterrador que em textos situados no âmbito da medicina encontremos motivos para desconfiar do que fazem os que têm por missão salvar e não matar populações inteiras de pessoas.

In: Enciclopédia Portuguesa e Brasileira

Eu não estou a acusar ninguém, meu caro Nimda!, declaro é que tudo se pode imaginar neste contexto, e armas de guerra biológicas não estão fora do horizonte do que o homem é capaz de fabricar, traficar e aplicar. De qualquer modo, o artigo em causa (1) é recente o bastante para os autores estarem vivos. Eles que neguem e se expliquem, a ver se conseguimos dormir descansados.

Essa errata aí em cima, meu caro, inserida numa obra dupla (bilingue, o mesmo artigo vem publicado em português e a seguir traduzido em inglês, mas com alterações de caracteres, como veremos) sobre a doença do sono, causada pela picada da mosca tzé-tzé, num total de 228 páginas, mais figuras, fotos e mapas, é uma piada muito triste.

Ah, não sabe o que são as glossinas? Pode crer que antes de pegar neste assunto também eu ainda não sabia. As moscas do género Glossina são a tzé-tzé (ou tsé-tsé, consoante as fontes); vivem ou viviam (esperemos) na maior parte do continente africano a sul do Sara. Por si mesmas, não oferecem perigo, mas podem estar contaminadas com tripanosomas e nessa altura causam várias doenças aos animais de cujo sangue se alimentam, incluído o homem. Uma delas é a doença do sono, perigosa não só por poder levar à morte o indivíduo contaminado como também por ocasionalmente se tornar epidémica, matando assim toda a população que viva numa zona de mosca. Foi o que aconteceu aos 600 "serviçais" (eufemismo de "escravos") importados de Angola para trabalharem na Roça Porto Real, na ilha do Príncipe, em 1894. Ao fim de cinco anos tinham morrido todos, segundo Azevedo et al.. Entre 1911 e 1914, sob a direcção de Bruto da Costa, fora feita uma campanha de erradicação da mosca - garantindo os autores que a última fora capturada em Abril de 1914 (pág. 21) -, porém é justamente para dar conta do seu reaparecimento, 42 anos depois, que se publica em duas línguas o trabalho de que nos ocupamos.

Os autores admitem que a mais provável forma de reaparecimento teria sido a importação de Fernando Pó (Bioko), em vasos cuja terra poderia ocultar pupas, pois se sabia que tinha havido transporte de plantas. Ninguém diz que os vasos foram transportados só por causa das plantas. Façamos profissão de fé : não foram eles quem levou as moscas outra vez para a Ilha do Príncipe. Porém, redigidos os dois artigos na língua das gralhas, a pergunta fica no ar : qual a dificuldade de alguém as transportar deliberadamente de um local para outro?

Segundo a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira (ver Glossina, vol. 12), em 1916 uma missão portuguesa deslocara-se expressamente ao Príncipe com o fim de combater a tzé-tzé, usando o processo do visco, preconizado por Maldonado. Deve ser uma terceira missão erradicadora, pois, consultando a mesma enciclopédia no verbete sobre Bruto da Costa, aí se diz que este médico nascido em Goa chefiara duas campanhas anti-mosca : uma na Ilha do Príncipe, entre 1911 e 1915, e outra em Benguela, entre 1916 e 1918. As missões multiplicam-se tanto como as gralhas e muito menos do que as erratas, o que não teria importância nenhuma se não levassem a pensar : andaram a exterminar moscas ou a ajudá-las a proliferar?

Citemos da Enciclopédia o passo relativo ao interessante processo de caçar moscas: "Fundamenta-se êsse processo no facto observado de que as môscas tsé-tsé são atraídas pelos indivíduos - homens ou animais - em movimento, e, também, pelos objectos pretos. Para a captação das môscas naquela ilha, durante três anos, homens vestidos de branco, tendo nas costas um quadrado prêto revestido por uma substância viscosa, percorreram zonas de glossinas, conseguindo-se assim capturar 470.000 môscas. Desde então nunca mais foi observada qualquer glossina e a ilha está hoje totalmente liberta da doença do sono".

Como a imagem mostra, em 1956-1958 também a missão em que participaram Azevedo et al. usou o processo de Maldonado para capturar moscas. É tão infalível como o "gaio método", por isso se usa pelo menos desde que Maldonado o inventou.

E a pergunta continua no ar : que terão feito às 470.000 moscas apanhadas em 1916, se em 1914 fora exterminada a última? Ou seriam as 470.000 moscas de 1916 as apanhadas entre 1911 e 1914? E mais : quem as contou? E com que objectivo? Qual será o processo de contar moscas com tal precisão aritmética, depois de coladas ao alvo preto viscoso pregado às costas dos trabalhadores?

Sim, estou de péssimo humor, porque tudo começou com a alegria de ver esse mapa aí em baixo do Golfo da Guiné, simples, pequeno e fácil de copiar para a história do Francisco Newton. Dá-se porém o caso de os olhos me terem caído em cima de um dos pontos cruciais das erráticas de Newton e Leonardo Fea, e não é que o ponto tinha sofrido mutação radical na sua identidade? Cabo de S. Jorge, revela o meu caro Nimda, atentando no mapa com esses seus olhos cheios de perspicácia! Cabo de S. Jorge!... O que isso é, é um Cabo das Tormentas, apesar de distante umas boas milhas do da Boa Esperança! Diga-me agora se aquela errata não é um estalo na cara dos desprevenidos leitores, diga-me se os autores não merecem ser chamados à pedra!




Para terrorista, o meu caro Vírus Nimda é às vezes muito ingénuo. Com que então, pensa que os autores não sabiam que aquele é o Cabo de S. Juan. Veja aqui ao lado a prova de que sabiam, e aviso que na tradução inglesa o Cabo de S. Juan continua a redigir-se à portuguesa.

Não, as gralhas ainda não acabaram, e note que não li o livro : por S. João Evangelista, não sou médica e de insectos não percebo nada. Só li aquilo que mostro, pois só isso basta, e só isso me é familiar. Mas não se preocupe, falta só o apanhado sobre a fauna da ilha, em que há pelo menos mais III ou VI gralhas que também não mereceram honras de errata.


Vamos por partes, sempre é um processo tão infalível como o de Maldonado:

1 - O papagaio cinzento não é a espécie de ave mais característica da ilha, os ornitólogos nem lhe prestam atenção especial, porque é um emigrante. Porém os autores referem-se a uma subespécie. Não é Psittacus erythacus, com i grego, sim P. erithacus. Na versão em inglês, os autores poêm ainda mais grega a subespécie, acrescentando-lhe o nome do autor : "Psitthacus erythacus princeps Boyd Alexander". O nome de autor é só o último, Alexander. Alexander, além de criador de espécies, sobretudo em Fernando Pó, que enriqueceu com umas 30 novas, de aves, algumas das quais são válidas (como subespécies), é também o famoso criador do mapa de Fernando Pó no Atlântico Sul, com as suas preciosas localidades de Balbeki e Banterbari. Só lhe falta uma Heliópolis e não é por o Sol não raiar a pique sobre o Pico de Clarence. Clique aqui se o quer ver, mas volte depressa, s.f.f..

2 - A cobra que come ratos é a djita, mas não levantemos problemas à gita. Já é preciso levantá-los noutro lado : não é Boedon, sim Boaedon, e o meu caro Nimda escusa de dizer que os autores não sabiam escrever, porque, além de letrados, na tradução inglesa escrevem o nome correctamente. O autor é Boulenger e não Boulanger, e neste caso o nome está mal escrito também na segunda metade do duplo - duplo livro, entenda-se.

3 - A soá-soá é a célebre cobrinha que em S. Tomé todos os autores querem que outros tenham confundido com a mamba, e não se vê razão para escrever soà-soà, com os acentos tão espetados para o outro lado que até a devem aleijar, tanto mais que na segunda metade do duplo, a inglesa, o nome supostamente indígena (em S. Tomé e Príncipe não há indígenas, todos os habitantes foram importados de Angola e outros pontos do continente) tem os acentos bem orientados - soá-soá.

4. Para rematar, a pobre Naja melanoleuca até deve ter ficado com as melenas todas arrepiadas ao ouvir estropiarem-lhe assim o nome, mas não foi a nós que chamaram melanolenca, portanto adeus, tudo isto é uma comédia que não dá vontade de rir.


P.S. Esqueci-me de dizer : ao que parece, os papagaios descritos por Alexander tinham caracteres não patentes nos exemplares do Bristish Museum (em princípio, os exemplares do British Museum são os tipos, os que serviram a Alexander para descrever a subespécie): <<'Psitthacus erithacus princeps' (Alexander), Bioko and Principe Is., said to be larger and darker, with feathers of underparts tipped purple; Bristish Museum material does not verify the claim.>> (2)

P.S. 2. Não há lagartos (Lacertidae) nas ilhas, sim osgas e "lagartos" da família Scincidae.

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(1) AZEVEDO, J. Fraga de, J. Tendeiro, L.T. de Almeida Franco, M. da Costa Mourão e J.M. de Castro Salazar (1961) - O reaparecimento da Glossina palpalis palpalis na Ilha do Príncipe (1956-1958). Junta de Investigações do Ultramar, Lisboa. Estudos, Ensaios e Documentos, 89, 228 pp., mapas.

(2) FRY, C. Hilary, Stuart Keith & Emil K. Urban, eds. (1988) - The Birds of Africa. Vol. III. Academic Press, London, San Diego, etc.. 612 pp. ilustr. by Martin Woodcock & Ian Willis.