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CIÊNCIA E SUBVERSÃO : JOSÉ DA SILVA LISBOA



Com efeito, a digitalização da fotocópia não deixa perceber bem o que escreve Alfredo do Valle Cabral (1) acerca do Visconde de Cayrú, mas daqui a nada faço a transcrição.

José da Silva Lisboa é um dos naturalistas do século XVIII, dos quais dizia, no outro artigo em linha, como este intitulado "Ciência e subversão", que eram todos espiões, mais interessados na independência dos seus americanos países de origem do que na salvaguarda das potências coloniais europeias.

Os brasileiros certamente deram um salto na cadeira lendo esta frase, não por ter acusado o Visconde de Cayrú de espionagem, sim por lhe ter chamado naturalista. A generalidade dos brasileiros conhece José da Silva Lisboa melhor do que eu, mas de outros sectores: das obras de legislação, economia e política, da sua actividade pró-independência, na qual é uso salientar o seu papel na abertura dos portos brasileiros a navios de todas as bandeiras. Naturalista, José da Silva Lisboa?!

Mas vejamos : o Visconde de Cayrú não é aquele naturalista encarregado de ir verificar, depois de outros, como Manuel Galvão da Silva, se no Mamocabo ou em outro ponto da Cachoeira não existiria uma fabulosa mina de cobre? Se ler o dossier sobre "A Pedra de Cobre", online no TriploV, verá que ele até fez duas vezes a prospecção mineira ou tentativa disso : de uma disse que não tinha podido descer aos abismos do riacho por estar a chover muito e ser perigosa a descida nessas paragens do Recôncavo Baiano, era preciso esperar pelo Verão. Da segunda, que não, não havia nenhuma mina de cobre na Cachoeira (Bahia), e era escusado outros naturalistas deslocarem-se ao local depois desta sua formal declaração em contrário.

O naturalismo não é uma profissão. Em Portugal, só o foi, que eu saiba, durante uns anos, essa designação foi substituída pela de investigador, após o 25 de Abril : naturalista era um cargo nos museus de História Natural, a que podiam concorrer pessoas com o antigo 5º ano dos liceus, hoje equivalente ao 9º ano de escolaridade. No século XIX, houve pelo menos dois naturalistas nomeados com este título para explorações nas possessões ultramarinas: Francisco Newton e José de Anchieta. Se já leu o livro sobre Francisco Newton (online no TriploV), sabe que ele foi nomeado naturalista de Sua Majestade para enviar informações.

A política de ensino na Universidade Reformada aconselhava a que os alunos de Leis, por exemplo, frequentassem o curso de História Natural e Química ministrado por Domingos Vandelli. Para preparar bem os naturalistas que haviam de partir para as colónias, em especial Brasil, escreveu Vandelli um livro de curso, conservado inédito na Academia das Ciências de Lisboa, que se intitula "Viagens Filosóficas..." (2), mas também podia chamar-se "Manual do Espião". Porquê? Porque ensina a ver e a pôr em relatório tudo o que em determinado país ou região é importante do ponto de vista de uma governação a estabelecer-se, a manter-se ou a ser defendida.

O mais importante trabalho de José da Silva Lisboa como naturalista não foi a descoberta da inexistência de minas de cobre na Cachoeira, sim uma memória descritiva da Bahia enviada a Vandelli, bastantes vezes citada, apesar de só ter vindo à luz em 1910 (3). Nessa memória, em tudo obediente ao livro de curso "Viagens Filosóficas", de Vandelli, Silva Lisboa presta todo o tipo de informações, incluindo a situação geográfica, equipamento militar, número de soldados disponíveis, pontos fracos da cidade de São Salvador em caso de ataque por mar, etc..

Qualquer governador, ouvidor ou juiz de fora era continuamente convocado a desempenhar papel de naturalista, quer pelo seu relacionamento com a pecuária ou agricultura, quer pela mineração - naturalista é o indivíduo com habilitações para lidar com os produtos dos Três Reinos em extensão à Química (necessária no tratamento do ouro, na tinturaria, farmácia, etc..). Em suma, ele é um conhecedor das fontes de riqueza e dos modos de as transformar, comerciar e por aí adiante. Profissionalmente, José da Silva Lisboa era um jurista. Mas o jurista, se quer defender causas que envolvam terras, pescarias, caça, extracção de ouro ou diamantes, precisava de ter estudado História Natural e Química. Nesta época, a História Natural é Económica, voltada sobretudo para a utilidade dos produtos naturais. José da Silva Lisboa era um economista, na senda de Adam Smith.

Posto este intróito, pergunta o leitor, e muito bem, que subversões em ciência cometeu José da Silva Lisboa, e eu prontamente respondo : não sei (além da questão da Pedra de Cobre, claro). A subversão de que me vou ocupar não foi cometida por ele, sim pelo seu biógrafo, Alfredo do Valle Cabral. É este quem fala às aves nos textos digitalizados.

Contam-se por milhares só as subversões nos textos dos naturalistas a que pode ter acesso no TriploV. No caso, trata-se de uma biografia, que não é classificável como tal. Mas é a biografia de um naturalista, se bem que o autor não se ocupe desse aspecto da carreira política do Visconde de Cayrú. É maçador falar desses milhares de atentados porque obedecem a um padrão com só três ou quatro categorias. Já vimos Augusto Nobre, na sua qualidade de perito em subversões geográficas, a localizar Aveiro, Figueira da Foz e Coimbra na região do Douro. A subversão geográfica é a categoria mais frequente. A segunda, em que também aparecem muitos exemplos, é a biográfica, precisamente. Os biógrafos prestam falsas declarações sobre a vida das personalidades de que se ocupam: por exemplo, fornecem abundantes datas e locais de nascimento e morte, o que tem o efeito de as tornar Matusaléns. É o caso de Vandelli, que terá vivido quase cem anos, se optarmos por aceitar as datas de nascimento e morte mais extremas. Eu costumo dizer que nasceu em 1735 e morreu em 1816, mas de facto nada mo garante, é apenas uma opção pelo mais plausível. Também acontece serem os próprios naturalistas a prestarem falsas informações sobre os seus movimentos, caso de Francisco Newton. Também estas circunstâncias são biográficas pois geram o retrato de uma pessoa dotada de ubiquidade.

Datas, desenquadradas de um contexto, não fazem sentido, a menos que representem efemérides como o 14 de Julho ou o 25 de Abril. Face a falsas cronologias, a pergunta a fazer não é a de qual a data verdadeira, sim outras : que sentido têm as falsificações? Que mensagem passam elas? Para que se falsifica a ponto de se confundirem identidades como as de Shakespeare e Francis Bacon, para dar um exemplo conhecido? Entre outras respostas, uma já a sabemos : trata-se de marcas de identificação dos iniciados. Nem sempre o regime político proporciona liberdade que permita declarar claramente que dada pessoa pertencia a esta ou aquela associação secreta. Porém há modos de identificar que não incorrem em subversão dos dados históricos.

Hoje não vou fazer sermões ao vírus Nimda para mostrar que não são lapsos de memória de Alfredo do Valle Cabral nem erros dos tipógrafos as gralhas que crocitam no texto em cima. Anote-se de novo um facto normal, dentro da anormalidade : não há segredo nenhum, as gralhas são aparatosas o bastante para até surdos as ouvirem. Sem comentários, vou apenas deixar o leitor a saborear o texto em letra mais legível, chamando a sua atenção para incidente excepcional : ao contrário do que sucede com os textos de Augusto Nobre, neste há um manifesto de elevada consideração pelos leitores - uma errata, tão sarcástica como inútil.

Pense nisto, se tiver um momento disponível : com que segurança podem trabalhar os investigadores em História e Filosofia das ciências, que tipo de ensino podem ministrar os professores aos alunos, que grau de credibilidade pode ter o discurso que passamos ao público em geral, quando as fontes históricas do naturalismo são uma sessão contínua de subversões?

Os restos mortaes do douto brazileiro, trasladados mais tarde por seu neto o dr. José da Silva Lisboa para as catacumbas do Mosteiro de S. Bento, alli se acham dentro de uma pequena urna funeraria com a seguinte inscripção, dada pelo nuncio Scipião Domingos Fabrini, e aberta em chapa metallica:

JOSEPH A SILVA LISBOA
VICECOMES CAYRUCENSIS DIVINIS
HUMANISQUE LITTERIS PERITISSIMUS
RELIGIONIS MONARCHIAE CONSTITUTIONIS
PATRIAE SCRIPTIS CONCIONIBUS STRENUUS
PROPUGNATOR.
HIC OBDORMIT
NATUS SOTEROPOLI BAHIEN. XVII KAL.
AUG. ANNO CH. MDCCXLVI.
FLUMINIS JANUARII CURSUM
CONSUMAVIT OCTOGENARIUS
XIII KAL. SEPTEMBRIS
MDCCCXXXV.

Cuja traducção litteral é:

"Aqui jaz José da Silva Lisboa, visconde de Cayrú, muito versado nas letras divinas e humanas, extrenuo propugnador da religião, da monarchia, da Constituição e da patria, não só nos seus escriptos, mas tambem nas assembléas. Nasceu na cidade de S. Salvador da Bahia de Todos os Sanctos, a 16 de Julho de 1746 (alias 1756) e falleceu aos 80 annos de edade a 20 de agosto de 1835."

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(1) CABRAL, Alfredo do Valle (1881) - Vida e escriptos de José da Silva Lisboa, Visconde de Cayrú. Typographia Nacional, Rio de Janeiro.

(2) VANDELLI, Domingos (1779) - «Viagens filosóficas ou dissertação sobre as importantes regras que o flósofo naturalista nas suas peregrinações deve principalmente observar, por D.V. ». Cópia de Frei Vicente Salgado. Ms. azul, Academia das Ciências de Lisboa.

(3) LISBOA, José da Silva (1910) - Carta para Domingos Vandelli, descrevendo-lhe a cidade, as ilhas e vilas da Capitania, o clima, as fortificações, a defesa militar, as tropas da guarnição, o comércio e a agricultura, e especialmente a cultura da cana do açúcar, tabaco, mandioca e algodão. Dá também informações sobre a população, os usos e costumes, o luxo, a escravatura, a exportação, as construções navais, a navegação para a Costa da Mina, etc.. Bahia, 18 de Outubro de de 1781. Anais da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, 32 : 494-506.