Make your own free website on Tripod.com

O NATURALISTA COMO CRIADOR: O ENIGMA DA MENSAGEM NA GARRAFA


Ao propor-me desenvolver o tema do homem como Criador*, esperava encontrar autores em que me apoiar. Tanto quanto apurei, entretanto, nenhum sistema de ideias aceita que o homem o seja, a não ser talvez o dos frequentadores do palácio de Satã, que não investiguei. Para as religiões convencionais, o Criador é um só, tenha embora muitos nomes - Deus, Ente Supremo, Grande Arquitecto do Universo, etc.. Para a ciência, na origem do universo e da vida está o acaso. Se nos colocarmos numa perspectiva ateísta, não haverá objecções a que se diga que Deus é uma criação humana, mas isto é um comentário, não uma teoria. Já sem polémica se aceita o homem como criador minúsculo, em todos os domínios - desde a procriação à pecuária e à agricultura, desde a arte ao infantário. Só neste pacífico relvado posso então pôr o naturalista a desafiar o Criador.

No âmbito do projecto Ciência extraordinária: espécies criticas (1), vou apresentar dois exemplos de discurso bifurcado, nos quais vemos mais propósitos além de descrever objectivamente a natureza - o mapa de Alexander (2) de Fernando Pó (Bioko), e uma mensagem que se diz ter sido encontrada dentro de uma garrafa, no cume do Pico de Clarence ou de Santa Isabel. É a epígrafe : "Hoy, 3 de abril de 1860 - Julian Pellón y Rodg. - Punto de ebullición, 195,5. Temperatura, 70º fah." Demonstram mais uma vez que o naturalista é um criador, como o poeta, o pintor ou o alquimista.

Os exemplos fazem parte da literatura relativa às explorações geográficas, botânicas e zoológicas em Fernando Pó. A ilha localiza-se no Atlântico Norte, portanto a norte do Equador, perto de São Tomé e frente aos Camarões. Nestas ilhas vulcânicas há altas montanhas. O ponto mais elevado de Fernando Pó, que rondará os 3300 metros, é o Pico de Clarence.

Se repararmos no mapa do tenente Boyd Alexander, um dos naturalistas que escalaram o Pico, verificamos que ele situa a ilha no South Atlantic Ocean. O seu catálogo das aves fernandinas, ilustrado com este mapa, foi publicado na Ibis. A Ibis ainda hoje é a mais importante revista de ornitologia do mundo. Mas a deslocação da ilha para o hemisfério sul não é a única atitude criadora do mapa - algumas localidades são imaginárias. Porque é que o cientista publicou esta obra criadora e porque é que na Ibis lhe aceitaram o artigo? No seu catálogo, descreve trinta e quatro espécies de aves exclusivas de Fernando Pó, dezanove delas coligidas em Bakaki. Um tal número de endemismos, concentrados numa aldeia, e descobertos depois de outros naturalistas terem explorado a ilha, em especial o português Francisco Newton, que não dão conta de terem observado tais espécies, é impossível à luz do senso comum. Para deslindar o mistério deste aviário, primeiro é preciso saber quem é o autor da obra e que ciência é a sua, pois não é só a normal.

A obra dos naturalistas, como da ciência em geral, é colectiva. Nenhum texto faz sentido isolado dos que tratam do mesmo assunto. É preciso comparar uns textos com os outros, se quisermos detectar o registo da criação. Por exemplo, até hoje, que saiba, ainda ninguém comentou o mapa de Boyd Alexander. Agora, que acabei de dizer que Fernando Pó se situa no Atlântico Norte, já o facto de ele a ter situado no Atlântico Sul acende a luz do sentido. Da confrontação de saberes ressalta um problema: ou bem que o mapa está errado ou então errada estou eu. Nenhum de nós está enganado, simplesmente eu, que sou uma criadora, refiro-me apenas à geografia da Terra; Boyd Alexander, um cientista, fez o mapa de uma ilha utópica, além de real. Fernando Pó, como São Tomé, Maurícia, etc., não é só obra de Deus ou do acaso, ela é também obra do naturalista enquanto criador.

O discurso da ilha simultaneamente real e imaginária foi tecido à imagem da Cidade do Sol de Campanella, da Atlântida de Platão, da Utopia de S. Tomás More, do Erewhon de Samuel Butler, etc., e muito em especial da Nova Atlântida de Francis Bacon. O que liga estas utopias aos naturalistas é o projecto comum de criarem um Estado perfeito, a República transportada para a Atlântida por Platão. A Atlântida, espelho da República, é uma palavra de passe destes homens, em geral republicanos, alguns mesmo carbonários, desde o século XVIII. Os naturalistas não são utópicos nem platónicos, pelo contrário - o seu lema é materialista. Têm é dispositivos para se identificarem uns aos outros e para marcarem certos objectos da sua investigação.

Marcarem como quem carimba o que é seu, como quem anilha aves para seguir o seu destino.

Utopia não quer dizer efabulação, nem objecto de desejo inatingível, sim nenhures, título também de Butler. Erewhon é anagrama de nowhere. As utopias são programas de governo, falam de regimes que já conhecemos, como a que deu nome ao género literário. Tomás More começa logo por abolir a propriedade privada, instaurando uma sociedade comunista no seu lugar nenhum. Mas o lugar nenhum é todos os lugares, a vocação destes filósofos é universalista:

Um dos topónimos imaginários de Alexander, Banterbari, explica-se a si mesmo como linguagem, a avisar que o mapa é utópico, pois banterbari, em inglês, significa país das maravilhas da linguagem, jogos verbais. Outro topónimo imaginário é Balbeki. Remete não só para a Civitas Solis de Campanella, como sobretudo para Baalbeck ou Heliópolis. Como o nome indica, nestas cidades adorava-se a Luz. Alguns utopianos de Morus também adoram um deus solar, Mitra. Alexander criou em Fernando Pó a terceira cidade das Luzes, e estas Luzes já as transpus para o movimento iluminado. Quer dizer, não me refiro apenas ao período iluminista, mas também ao intemporal esoterismo.

Elo de ligação geográfica com as utopias, sobretudo com a Cidade do Sol, do dominicano Campanella, é o facto de esta se localizar sob o Equador, no South Atlantic Ocean, e constituir uma prisão. Os habitantes não são degredados, mas estão prisioneiros numa cidade de muralhas mais inexpugnáveis que as de Tróia. Ora as ilhas têm sido escolhidas desde sempre como prisões de alta segurança para deportados políticos. Fernando Pó era a mais mortífera colónia penal espanhola, São Tomé não lhe ficava atrás, e mais a norte, em Cabo Verde, em 1936 cria-se a mais medonha colónia penal portuguesa, o Tarrafal.

A cidade-prisão de Campanella abriga um microscosmos animal, algo como um jardim zoológico. Fernando Pó, à face dos criadores catálogos da fauna, não é um ecossistema natural, sim artificial - registam-se ali nove espécies de macaco, mais do que em toda a Angola, que é infinitamente maior, e até hipopótamos vivem no Lago Loreto, a mais de 1300 metros de altitude (3). Face a esta pantagruélica fartura, as trinta e quatro novas espécies de aves de Alexander não enchem a cova de um dente.

A New Atlantis de Francis Bacon, obra de base na literatura rosicruciana, apresenta uma sociedade secreta, o Templo de Salomão, a viver numa ilha que não figura no atlas. Nessa ilha, procede-se a experiências em todos os campos da ciência, entre elas de biotecnologia -cruzam-se animais e plantas, fazem-se enxertias, culturas de peixes, etc., para obter raças melhoradas e espécies novas. Nada disto é fantasia, pratica-se desde tempos imemoriais. Quase tudo o que Bacon apresenta como maravilha própria de uma utopia existia no seu tempo. O livro foi publicado pela primeira vez em 1627. O que não existia - se não existia -é hoje o que há de mais banal. Em Tomás More encontramos algo que parece sofisticadíssimo - os utopianos criam frangos a partir de ovos chocados em incubadora. Isso existia na sua época e ele mesmo experimentou, ou não diria, com tanta certeza, que o calor tem de ser igual, ou seja, é preciso manter constante a temperatura. Mais impressionante é ele mostrar que a etologia só em palavra é ciência nova. Quatrocentos anos antes de uma gansa adoptar Konrad Lorenz como sua mãe, por o cientista pretender estudar o comportamento animal, já More sabia que nestas circunstâncias artificiais, mal saem da casca, os pintainhos consideram os homens a sua mãe, correm atrás deles e reconhecem-nos.

O programa de Bacon foi usado como projecto de investigação e reforma dos estudos científicos por duas entidades que não se excluem - os Rosa-Cruz e a Royal Society of London, uma poderosa sociedade científica.

Neste caso das explorações em Fernando Pó, a obra não é assinada por Francisco Newton, Boyd Alexander, Rogozinski, Revº Sanz, Reverendo Coll nem Reverendíssimo Padre Juanola, tudo santos homens que escalaram o Pico. A obra é colectiva, quem assina é uma fraternidade. Vejamos como e porquê.

Todos sabemos o que é o naturalismo na arte, na filosofia e na História Natural. O facto de o conhecermos em vários campos de actividade, como se fossem vários naturalismos e não um, impede que se saiba ao certo quem é o naturalista e que ideias professa. "Naturalista" não é um grau académico nem corresponde a um ofício. Ora o naturalismo, que considera a natureza o principio absoluto do ser, era o corpo doutrinário difundido pela maçonaria. Eis os seus dois mais importantes principios:

.Tudo o que existe é natural.

.Tudo o que existe na natureza é explicável pela razão humana.

Se tudo o que existe é natural, são naturais os híbridos de enxerto, as quimeras, enfim, todas as raças e espécies de animais e plantas criadas pelo homem por selecção artificial. Quando se diz que tudo o que existe é natural, não se exclui o artificial, exclui-se o sobrenatural - o que diz respeito à fé. Em consequência, o naturalismo não só se opõe à religião revelada, como tem sido, ao longo dos séculos, o principal demolidor da Igreja Romana. Invoca uma religião natural, a que bastam cerimónias civis a substituir as religiosas. Provocou assim a separação entre os poderes da Igreja e do Estado. Ao separá-los, retirou à Igreja a tutela que exercia sobre os cidadãos, através dos sacramentos -baptismo, comunhão, casamento, enterro e sagração dos monarcas.

O naturalismo - traduzo Rousse-Lacordaire (4) - representava uma doutrina particularmente perigosa para o catolicismo dos séculos XVIII e XIX. Com efeito, ao afirmar a existência de um estado de natureza autónomo na sua origem e no seu fim, contribuía para reforçar o movimento de secularização dos poderes civis. Ao fazê-Io, opunha-se ao sacramentalismo do Antigo Regime, ainda defendido pela Santa Sé.

A obra fundamental para identificar o pedreiro-livre como naturaIista e explicar a sua doutrina é a encíclica Humanum genus (5):

O princípío fundamental dos Naturalistas, como logo do nome se deduz, consiste em ser a natureza humana a unica soberana e mestra em todas as cousas. Assentado elle, ou não importam os deveres para com Deus, ou os prevertem com termos vagos e indecisos. Negam a revelação divina; não admittem dogmas; só acceitam como verdadeiro aquillo, que esteja dentro da esphera do intellecto humano; não toleram mestre algum, que tenha auctoridade pelo seu officio de ser acreditado. E como à Egreja catholica foi confiado o privilegio exctusivo de possuir e conservar em toda a sua pureza e integridade o deposito das doutrinas divinamente reveladas, conjunctamente à auctoridade do magisterio com os meios celestes para a salvação eterna, contra ella se enfurecem os inimigos, e grande é a sua ira Observe-se o seu procedimento nas cousas attinentes à religião, especialmente n'aquillo em que ella se considera mais à vontade, e reconhecer-se-ha que a seita Maçonica procura cumprir rigorosamente os principios dos Naturalistas

Identificados os naturaIistas como membros de fraternidades em cujo nome assinam a obra, passemos à obra, a mensagem da garrafa, que é um divertimento, próprio da gaia ciência, gai savoir ou saber alegre. "Estai em guarda! Prepara-se alguma coisa, massa de malícia e de maldade: incipit parodia, isso não deixa qualquer dúvida...", profetiza Nietzsche, na abertura da Gaia Ciência, sabendo que a paródia é irmã siamesa da tragédia.

A paródia é a seguinte: de cada vez que um explorador subia ao Pico de Clarence, depositava numa garrafa a sua mensagem; o próximo devia recolhê-lha, enviá-la à Sociedade Geográfica de Madrid e à instituição homóloga do seu país de origem. Tanto quanto se diz, só existe uma mensagem na Sociedade Geográfica de Madrid. A relativa à escalada de Francisco Newton, em 1894, que devia estar em Madrid e em Lisboa, não existe na Colecção de Manuscritos da Sociedade de Geografia de Lisboa. A que apresento, colhida em Unzueta (6), terá sido depositada na garrafa pela primeira expedição espanhola, chefiada por Pellón e Rogozinski.

Um dos enigmas da mensagem é o da altitude do Pico de Clarence, que não sei bem qual seja. Não que faltem informações, pelo contrário. Segundo as fontes consultadas, eis algumas das suas altitudes: 1400, 2800, 2850, 3000, 3096, 3200, 3283, 3300 e 3365 metros. 1400 é a altitude fornecida por Unzueta, 3283 por Boyd Alexander, e 3300 a indicada por Francisco Newton (7).

Francisco Newton não subiu ao Pico na data indicada, nessa altura estava ele em Timor. De resto, em Femando Pó já ele tinha coligido várias vezes para os museus, sobretudo o de Lisboa. Não ia lá fazer nada, ao Pico já toda a gente tinha subido.

Estas escaladas são sátiras às grandes explorações africanas, mais interesseiras do que cientificamente desinteressadas - descoberta do Lago Ngami, travessias de costa a costa, etc.. Ao Pico subira Rogozinski e a esposa, acompanhado por um bubi (7) e as suas duas esposas, imagem própria de um piquenique. Uma das mais antigas escaladas foi feita durante a administração inglesa da ilha, aí pelos finais dos anos vinte. A primeira escalada espanhola data de 1862, e pouco antes de Newton (não) subir ao cume tinha lá estado um governador espanhol, Barrasa, que encontrou vazia de mensagens a botelha onde deviam estar uma em polaco, de Rogozinski, e outra em inglês, da esposa. Em 1891, Barrasa desafiou Valero y Belenguer (8) para uma ascensão, mas não passaram das altas pradarias porque lhes faltou completamente a água. E é Valero quem confirma: Los viajeros han ganado muchas veces el Pico de Santa Isabel, ascensión molesta, pero de más encantos que la visita á los pueblos (9).

Rogozinski subiu ao Pico com o espanhol Pellón, em 1860 (10). Aí deixaram a mensagem que nos ocupa, dentro da inevitável garrafa, segundo Unzueta, que não só ignora onde esteja a mensagem, como pergunta se existirá. Eu garanto que existe no livro de Unzueta, e é um quebra-cabeças muito excitante. Declara o autor que a altitude do Pico é de 1400 metros, o que não justifica as fogueiras da escalada de Newton para aquecer os vinte e dois anoboneses, os oito guias bubis, os três marinheiros, os quatro meninos da catequese, mais o comandante da canhoneira Salamandra, mais o Padre Sanz, mais os numerosos funcionários das obras públicas que o acompanharam na procissão (11). A confirmar este ocioso dispêndio de combustível, Unzueta pôs-se a fazer contas, de maneira que a temperatura registada na mensagem está em perfeita concordância com a altitude - 70° Fahrenheit: 21° centígrados. O enigma não é este nem o da abreviatura do nome Rogozinski, sim o ponto de ebulição.

Começamos por não saber se os 195,5 são graus Celsius ou Fahrenheit, mas partamos do princípio de que são Fahrenheit e temos cerca de 90,8° Celsius. Levanta-se um problema de química, certamente ao nível de um aluno de liceu da época, mas que ultrapassa as minhas capacidades. Recorro ao meu co-autor, Nuno Marques Peiriço, químico:

- Ponto de ebulição de quê? - responde ele ao telefone:

- Do conteúdo da garrafa!

Intrometem-se de lado:

- Da água! O ponto de ebulição da água e a pressão atmosférica permitem saber a altitude! Era assim que antigamente se calculava.

- Ponto de ebulição do conteúdo da garrafa! - repito, e não vejo, em princípio, contradição. A água ferve a 100°, os líquidos alcoólicos a menos e os metálicos a muitíssimo mais. A 1400 metros de altitude, não há motivo para água ferver a 90°. Então o que estava dentro da garrafa? - eis o enigma, dependendo da questa: uns querem saber a altitude, outros se era Lacryma chrysti, tinto ou cerveja o conteúdo da botelha. Se o que estava dentro da garrafa era a mensagem, o que ferve é a mensagem, e então entende-se que Unzueta pergunte se ela existe, isto é, se chegou a nós o S.O.S. do venerador de Baco.

Isabel Cruz, professora de Físico-Químicas, uma das pessoas que queria saber a altitude implicada na mensagem, perguntava-se:

- A que altitude deve estar a água para entrar em ebulição a 90,8° C?

Ela mesma fez os cálculos, de que resulta afirmar eu agora que o conteúdo da garrafa pôs o redactor da mensagem a dançar nas nuvens. O Pico de Clarence tem mais uma altitude, a somar às que já conhecíamos: ultrapassa em pouco a de um Boeing em voo de cruzeiro para os Himalaias, e, querendo aterrar no cume do Everest, ponto mais elevado da Terra, terá de descer a insignificância de uns dois quilómetros (12)

Em 1884, Rogozinski volta a subir ao Pico, e diz não ter encontrado na garrafa a mensagem do seu imediato antecessor, Beecroft. Espantoso é que, com mensagem ou sem ela, a garrafa lá está nas alturas da montanha, sempre à espera que o próximo náufrago a use para enviar o seu S.O.S.. Receio muito que as mensagens não tenham chegado às sociedades geográficas, porque os náufragos as beberam. Prova disto é o facto de se falar tanto em mensagens depositadas e afinal todos acharem vazias as garrafas.

Conta ainda Unzueta que uma expedição fez a escalada em 1899, mas nada mais refere acerca dela. E que Milrbraed (13) também subiu ao Pico em 1911, aí descobrindo a cruz deixada pelo Padre Sanz e a garrafa que continha o documento depositado pela expedição hispano-portugueesa de 1894, chefiada por Newton e Espinosa, que trouxeram para a a cidade de Santá Isabel para restauro, por estar em mau estado de conservação. O que estava deteriorado era o conteúdo da garrafa. O conteúdo não restaurava, por isso foi restaurado.

Publicada a mensagem de Newton, Espinosa e Padre Sanz em 1895, como é do conhecimento de Unzueta, diz ele que ninguém a descobriu na garrafa até 1911, apesar da expedição incógnita de 1899. Depois disso, ninguém mais soube dela. Deve estar no bar da biblioteca de Abelardo Unzueta.

A subida ao Pico de Boyd Alexander, em 1902, não faz parte desta paródia, por isso o tenente da Brigada de Artilharia nem sequer dá mostras de saber que no Pico o esperava uma garrafa mensageira. Mas Alexander sabe que Newton coligiu perto do cume, não em 1894, sim em 1895. Eles tiveram o mesmo colector, José Lopes da Silva, o conhecido poeta e intelectual caboverdiano. De notar apenas que a escalada não é bem um piquenique: não havia estradas, em certas zonas era preciso abrir caminho na floresta virgem derrubando árvores, pelo que a progressão era lenta e penosa. No troço final do percurso, deixavam a bagagem para trás, na choça dos bubis, por causa do peso. Como já não existem ribeiros nem lagos, cada um tinha de carregar a preciosa água de que necessitava.

A 28 de Dezembro de 1911, quem faz a escalada são os missionários. Deixam no Pico uma cruz de madeira vermelha. A cruz vermelha é a dos Rosa-Cruz. Depositam outra mensagem na botelha, assinada por Marcos Ajuria, e é com pesar que declaro exauridas aqui as informações acerca de mensagens em garrafas, nesta navegação pelas cumeadas da Nova Atlântida, o que não me retira mérito - ainda assim, não só consegui acompanhar os náufragos montanhistas até 1911, como decifrei o enigma do corpo que entra em ebulição a 195,5 graus iniciáticos.

A fábula da mensagem na garrafa é metalinguística, aponta para si mesma como linguagem das aves, também chamada Diva-Garrafa, como escreve José Manuel Anes (14), referindo-se a Rabelais, grande cultor da cabala fonética, escrita híbrida ou macarronés, discurso das gralhas, gaia ciência, arte de música, língua diplomática, a linguagem hipotética aprendida pelos erewhonianos no Colégio da Sem-Razão, como se prefira. É a linguagem dos alquimistas, de que são herdeiros os maçons.

A língua tem mil nomes porque na realidade não é uma língua, um crioulo nem um dialecto. Não apresenta estrutura gramatical própria, produz, isso sim, efeitos estruturados, e cada efeito suscita sua designação. Tratando-se sempre do mesmo fenómeno, não há no entanto relação entre a gaia ciência de Nietzsche, uma filosofia, e aquilo a que tenho chamado escrita híbrida ou discurso das gralhas. Nestes, a grafia é alterada, surgem muitos pormenores passíveis de ser considerados erros, e então aproximam-se da cabala fonética. Exemplos são os de Alexander com a toponímia poense. Tudo isto marca o discurso com assinaturas maçónicas ou paralelas, como é o caso mais óbvio de os naturalistas referirem o Grande Arquitecto do Universo ou o Ente Supremo. Aliás, não aparecem só nos textos dos naturalistas, nas utopias, também. A mais evidente da Nova Atlântida é o nome da sociedade secreta, Templo de Salomão. Muito mais críptica e por isso mais interessante é o nome de uma erewhoniana -Yram. Com ela ficamos face à cabala fonética: tratando-se de um anagrama muito simples de Mary, as palavras Yram e Hiram são homófonas. Hiram é o arquitecto do Templo de Salomão, cujo assassínio se encena no ritual do terceiro grau da maçonaria.

O que se passa com a linguagem das aves é que a função referencial se bifurca. Ao desdobrar-se, aponta para vários referentes simultaneamente, criando no receptor essa grande perturbação de não saber se o que lhe comunicam é real ou imaginário. O efeito é o do ilusionista, por isso a língua das aves é mágica - encanta, fascina, mas ao mesmo tempo exaspera, porque nos escapa sempre qualquer coisa - o como se faz, no espectáculo de ilusionismo; com que fim se faz, na ciência.

Fulcanelli, embore a considere indefinível, classifica-a como um calão - argot -argótica, arte gótica, a dos construtores de catedrais ou maçons -, e às vezes, sim, há um léxico próprio, quanto mais não seja os tecnicismos de cada ciência. Fora deles, o que aparece são expressões que correspondem a private jokes, como a piada do capitão Boteler, cujas cartas das ilhas do Golfo da Guiné continham erros notáveis. Conheço cartas das ilhas com erros notáveis, como a de Alexander, a de Lopes de Lima, a de Girard, etc., mas há mais de um ano que procuro o capitão Boteler, sem o conseguir encontrar. O que encontro é sempre a garrafa, que em inglês se diz bottle, em castelhano antigo, botteler, em francês, bouteille, em português, botelha, e por aí adiante. Botte, em italiano, significa tonel. Também encontro razoável apoio para a hipótese de a piada garrafal aludir às cartas de nenhures, em especial a de Erewhon, cujo autor se chama Butler. Conclusão imediata a retirar de tudo isto: os naturalistas sabiam as utopias de cor e salteado.

Não obstante estes acidentes lexicais, susceptíveis de darem razão a Fulcanelli, ao classificar como argótica a linguagem das aves, permanece este facto de que ela é interior a qualquer língua natural. É do interior do português, do francês, do latim ou do castelhano, que as aves ou as gralhas falam

No discurso literário, a bifurcação da referência abre o texto a múltiplos sentidos, como é o caso de Yram. Além de indicar o arquitecto ou mestre-maçon, Mary sugere qualquer mulher amada, que também pode ser a Virgem Maria. ButIer era um ex-sacerdote emigrado para a Nova Zelândia, onde se ocupava a criar rebanhos de ovelhas, enquanto reflectia sobre o darwinismo.

No discurso científico, ela chama duplamente a atenção para um referente particular, dentro do seu referente geral que é a Natureza. As mensagens apresentadas incidem assim com excessiva veemência sobre Fernando Pó, ilha na qual, como em Utopia ou em toda a parte, a ciência maçónica, directa continuadora da experimentação alquimista, tem desenvolvido práticas de biotecnologia. Ilha onde também havia deportados políticos, a requererem a solidariedade dos Irmãos. Ilha próxima do Congo, numa época em que Leopoldo da Bélgica se preparava para ocupar metade, sendo que a outra metade foi para os franceses, e os portugueses, no meio das parti!has, ficaram com Cabinda. Esta situação geo-estratégica também requer os serviços especializados da Nova Atlântida, cujos cientistas partiam em grupos de três por esse mundo fora, sob identidade e nacionalidade supostas, a coligir informações de todo o género, para o que se muniam de grande quantidade de dinheiro.

Quanto à Diva-Garrafa, designação da linguagem das aves apropriada para descrever o discurso excessivo de Rabelais, no que toca à comezaina, bebedoria e outros prazeres carnais, é a que temos também à nossa frente nos relatos da mensagem na garrafa. O deus indicado pelo diva é Dionísio, e mais propriamente esta linguagem é a da embriaguez sagrada, a que permite sondar o futuro e obriga a dizer a verdade. A garrafa aponta o conteúdo, que não é um papel nem a respectiva mensagem. Duarte Silva (15), biógrafo de Francisco Newton, deixa dele a imagem especular de um ilusionista e de um alcoólico: mal se levantava, de manhã, logo se punha a beber cerveja. Não era água o que os exploradores depositavam na garrafa. O que o narrador, em Erewhon, leva entre os mantimentos, na sua exploração da misteriosa serrania, é três garrafas de aguardente. O que (não) esperava pelos naturalistas no Pico de Santa Isabel era o divino néctar, essa salvadora inspiração.

Pensando agora nas culturas para o século XXI, direi que é urgente estudar a língua das aves se quisermos controlar a acção criadora do homem sobre a Natureza. Os mil nomes da língua dos pássaros reduzem-se finalmente a um -Tradição.

_______________________________

*Comunicação apresentada ao Colóquio Internacional Museus, Arte e Ciência: Que Culturas para o Século XXI? CICTSUL. Museu de Ciência, Lisboa, Outubro de 1999. Revista Atalaia, Lisboa, 5, 1999.

NOTAS

1. Maria Estela Guedes & Nuno Marques Peiriço -"Carbonários, Operação Salamandra - Chioglosa lusitanica Bocage, 1864". Contraponto, Palmela, 1998. E Do Dodó à Fénix. Colóquio Discursos e Práticas Alquímicas. Centro Interdisciplinar de Ciência, Tecnologia e Sociedade da Universidade de Lisboa. Biblioteca D. Dinis, Odivelas, Julho de 1999.

2. Boyd Alexander - On the Birds of Fernando Po. Ibis, 1903.

3. Emilio Bonelli - Nota sem título. Boletín de Ia Sociedad Geográfica de Madrid, 37, pág. 335, 1895.

4. Jérôme Rousse-Lacordaire -"Rome et les Francs-Maçons - Histoire d'un Conflit", Berg lntemational Editeurs, Paris, 1996.

5. Leão XIII - "De Secta Massonum" ("Humanum genus"). Lisboa, 1884.

6. Abelardo Unzueta -"Historia Geográfica de Ia Isla de Fernando Poo". Instituto de Estudios Africanos, Consejo Superior de Investigaciones Cientificas, Madrid, 1947.

7. J.V. Barboza du Bocage -Subsídios para a fauna da Ilha de Fernão do Pó. Vertebrados terrestres. Jornal de Sciencias Mathematicas, Physicas e Naturaes, Lisboa, IV (13), 1895.

8. Os bubis são as tribos de Fernando Pó, e parte da paródia com a toponímia resulta de a sua língua ter muitos vocábulos começados por b. Quando dois indígenas se encontram, saudam-se dizendo "Bubi!" Os topónimos bubis, nomes das tribos, correspondentes aos alterados por Alexander são Bantabari (Banterbari) e Bakake (Bakaki). Não figura na corografia fernandina nada foneticamente próximo de Balbeki.

9. José Valero y Belenguer - La isla de Fernando Póo. Boletín de Ia Sociedad Geográfica de Madrid, 1, 1892.

10. A primeira escalada espanhola foi em 1862 e em 1860 subiu ao Pico um espanhol. Não incorro em lapso nenhum, relato com despretensão tudo o que apurei sobre assunções ao Pico de Clarence. Também Newton, antes de nascido, já coligia morcegos nas Celebes e em Timor. Além disso, morreu três vezes. De outra parte, Rogozinski, que Nuno Marques Peiriço e eu fomos induzidos a dar como falecido numa emboscada, nos Carbonáríos, não só sobreviveu como gozava no Equador de saúde invejável - em 1862 escalou o Pico, e em 1884 ainda não tinha perdido o fôlego. Mais: a ascensão com a esposa foi pouco antes da de Newton, por conseguinte pouco antes de 1894. A sua roça em Fernando Pó não devia ser de cacau, sim do elixir da longa vida.

11. Publicaram-se meia dúzia de relatos, portugueses e espanhóis, nas mais respeitáveis revistas científicas, desta mirífica expedição hispano-portuguesa, mas nenhum bate certo com outro.

12. Pelos cálculos de Nuno Marques Peiriço e Isabel Cruz, a altitude do Pico de Clarence ímplícita na mensagem de Unzueta é de mais de 10.000 metros. O Everest anda à roda dos 8.000. Esta paródia e semelhantes ocorrem com outros acidentes geográficos. O mais banal é deslocarem-nos de uma colónia para outra. Damião Peres e Fontoura da Costa chegam a dizer que a ilha Rodrigues só existiu na ardente imaginação dos navegadores portugueses do século XVI, como contamos na história do Dodó, ave extinta do arquipélago das Mascarenhas, cujas três maiores ilhas são a Maurícia, Reunião e Rodrigues.

13. Conhecemos um botânico chamado Mildbraed.

14. José Manuel Anes - A Língua dos Pássaros e a Quinta da Regaleira. In: "Vítor Mendanha entrevista José Manuel Anes. O esoterismo da Quinta da Regaleira". Hugin, Lisboa, 1998.

15. J. Duarte Silva -"Francisco Newton, explorador e naturalista (Apontamentos para urna biografia)". Agência Geral das Colónias, Pelo Império, Lisboa, 1940.