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CIÊNCIA E SUBVERSÃO : JOHN EDWARD GRAY


GRAY, 1845, p. 110-111
BOCAGE, 1896, p. 73

Parabéns, o meu caro Nimda tem aprendido alguma coisa com os meus sermões! Onde é que já se viu um tratado sobre animais ter no mínimo 666 volumes, para os autores, Duméril & Bibron, apresentarem a descrição original de Euprepes de Cocteau no 666º? Isso nem uma enciclopédia! Concordo consigo : Gray (1) queria armar-lhe uma esparrela, mas o meu caro Vírus Nimda já é um iluminado em naturalismo, por isso não meteu o pé na argola. Diga, diga "XXXIII"! Trinta e três volumes, ainda vá, agora 999 - perdão, foi uma pequena dislexia, queria dizer seiscentos e sessenta e seis! Por S. João, isso não é verdade!

Não, tenha paciência, em numerologia sou um desastre! O meu sermão de hoje é sobre assunto que envolve esse menor dos meus conhecimentos, e por isso peço de antemão desculpa se errar alguma conta, mas não tem por objectivo os números - nem árabes, nem hebraicos, nem romanos. Hoje vamos ver alguns aspectos da quarta categoria de subversão em ciência - a anatómica ou morfológica : os naturalistas prestam falsas declarações sobre as formas, dimensões e outros caracteres orgânicos dos animais e plantas, e nem sempre é por esse vício de descreverem novas espécies para a ciência a partir de um indivíduo único.

Sim, uma coisa é a espécie, outra os indivíduos que a representam. O conceito de espécie é muito polémico e na grande especialização já quase nem se fala delas, sim de subespécies, superespécies, complexos, etc.. - tudo eufemismos que evitam a palavra "híbridos", muito delicada apesar de subentender a seguir um "naturais", e a expressão "híbridos artificiais", que é uma perfeita obscenidade para os evolucionistas.

A espécie é uma população. Não diz respeito a um indivíduo, por exemplo o representado na gravura abaixo, que retirei do artigo de Bocage (2) em que se registam as dimensões de um exemplar de Euprepes/Euprepis/Charactodon/Macroscincus (ou Mabuya) coctei, a espécie diz respeito a todos os indivíduos iguais ao da gravura, e é preciso que façam meninos. Se os vir em flagrante delito e assistir ao parto, o que não é assim tão fácil nem frequente, pode concluir que pertencem à mesma espécie. Se não vir flagrantes nem meninos, e se macho e fêmea, no seu aquário, não ligam nenhuma um ao outro apesar de muito parecidos, não pode concluir nada, apesar de as novas espécies se descreverem em 99,9% dos casos sem o naturalista ter presenciado flagrantes nem partos.

Suponha o meu caro Vírus Nimda um habitante de Saturno que chegou à Terra num ovni faiscante, aterra no peitoril da marquise, entra pela sala de comandos do TriploV e me encontra sentada ao computador. Como é muito parecido consigo (no tamanho), manda logo para Saturno uma descrição dos terráqueos tomando-me como tipo (modelo) da espécie. Veja o que ele escreveria sem despregar os olhos de mim : "Os terráqueos são macrocriaturas, absolutamente gigantescas, que ultrapassam a altura dos nossos maiores arranha-céus. Têm o corpo dividido em três partes: a primeira mexe, e tem uma esfera em cima coberta de grossas cordas de várias cores, muito enroladas. Essa parte mede cerca de 80 centímetros de altura!!! A segunda parte do corpo é um cubo diante da superior, não mexe, mas tem lá dentro os órgãos todos em movimento ao longo de um imenso painel iluminado. Mede uns 50 cm de largura!!! A parte inferior, com cerca de 40 centímetros de altura (!!! - os naturalistas adoram os pontos de admiração!!!), tem a forma de um duplo esquadro e é um suporte imóvel das anteriores. O carácter mais discriminante da espécie terráquea são as dimensões, muito superiores às dos habitantes de Saturno : 120 centímetros de comprimento total por 50 de largura!!!"

Ah, já fez as contas? Já viu que no livro de Gray os Euprepes/Macroscincus têm metro e meio de comprimento e que em Bocage não chegam sequer a meio metro? Sabe que os animaizinhos, embora não sejam propriamente lagartos (Lacertidae), na maior parte se parecem no tamanho com as lagartixas e que os maiores não vão muito além dos sardões? Não há lagartos desta família (Scincidae) com metro e meio de comprimento, isso são os crocodilos e dragões de Komodo!

Mas isto não é nada, meu caro Nimda, diria mesmo mais : não é nadinha! Nas mais recentes informações sobre a espécie, o comprimento total médio é de 17 cm! Dezassete centímetros! Não, não conto outra vez a história, poupe-me! Tem uma síntese na do Francisco Newton, clique aqui para a ler e volte para continuarmos o sermão.

Essa espécie, meu caro Nimda, é a razão das minhas maiores vergonhas intelectuais. É o celebérrimo Macroscincus coctei, o lagarto gigante de Cabo Verde. É por isso que se chama Macro, por ser imensarrão!!! Foi com ele que me estreei a fazer História das ciências, e logo n' O Escritor, a revista da Associação Portuguesa de Escritores! (3)

Não houve uma única esparrela em que não tivesse caído, e por aí adiante, sempre que pego nos textos sobre esses bichos, por mais que saiba que são uma das maiores fraudes da Zoologia, meto sempre o pé em nova poça.

Diz-se que estão extintos desde a Guerra de 14, mas os naturalistas procuram MAAACROscincus!!! De certeza não os enxergam se já só tiverem de tamanho seis ou cinco cm.

Acha que esta confusão de medidas se deve a descrições a partir de um único indivíduo? Depois, vai-se a ver, os outros da população são pequenos e a média baixa? Ó meu caro Nimda, é verdade que Duméril e Bibron - ou Biberon, como lhe chamam outros - , na página 666 (vol. V) da sua Herpetologia Geral, descrevem uma espécie a partir de uma única pele com 60 cm de comprimento! Mas Gray, que trinta anos depois andou em exploração por Cabo Verde, Madeira e Canárias, com Wollaston e com o Barão do Castelo de Paiva, e é tão herpetologista como os franceses, atira-lhe com um metro e meio à cara! Já lhe disse : lagartos desta família com metro e meio não existem! Esse metro e meio equivale aos 24 cm, dos quais 10 de cauda, dos Quioglossídeos na Grande Enciclopédia Portuguesa-Brasileira, quando a salamandra não vai além de 15cm, dos quais dois terços são de cauda. Equivale àqueles peixes bivalves fluviais e marinhos, Gobius e Gobio, de Bastasar Osório, etc.. Leia as cartas do Rosa de Carvalho, no TriploV. O desalmado até diz que, quando se palpa a testa de uns sapos, percebe-se que têm uma saliência! Saliências na testa têm os que dão de comer aos filhos dos cucos! Na enciclopédia que já mencionei, diz-se que os quioglossídeos são "réptis urodelos", do Macroscincus diz-se que tem escamas de peixe e que é mole e lesmático! Moles são os moluscos como as lesmas e répteis são as cobras, osgas e lagartos, não as salamandras. Às Tarentola (osgas) chamam eles Tarantula (aranhas), às Myogale (mamíferos) chamam Mygales (tarântulas), e até aos Fiscus (pássaros) chamam Ficus (figueiras)!

Hehe, finalmente percebeu, meu caro Vírus Nimda! Misturam tudo na língua das aves porque a língua das aves é macarrónica, e falam em macarronés para o meu amigo ficar a saber que as espécies são macarrónicas. O Macroscincus coctei não se extinguiu, os caracteres próprios do gigantismo é que desapareceram. Olhe o exemplo das cores : certa espécie de ave é descrita como tendo mancha amarela no peito, vai-se a ver, os passarinhos não têm mancha nenhuma e então há um esperto que diz : pois é, o pólen desapareceu do espécime-tipo!

E não é Seabra quem diz que tem imensas dúvidas quanto a uns morcegos encontrados em Timor por Francisco Newton, porque se calhar os caracteres vão desaparecer de Timor? Mas deixemos Seabra para um sermão dedicado apenas aos caracteres, agora já estou muito cansada.

O quê?! Então não sabe quem era John Edward Gray? Nada menos que o director da secção de História Natural do British Museum! Aquele naturalista a quem foi negada a entrada na Sociedade Lineana de Londres, por ter feito classificação por um sistema não lineano, e que por isso jurou esmigalhar debaixo da sola dos sapatos todas as espécies de Lineu! É como lhe digo : pegue em obras das mais especializadas, sobre peixes de água doce, morcegos, aves, répteis, anfíbios, etc.. Não se fala já de espécies, só de complexos e misturas assim...


(1) GRAY, J.E. (1845) - Catalogue of the specimens of Lizards in the collection of the British Museum. London. 290 pp..

(2) BOCAGE, J.V. Barboza du (1896) - Reptis de algumas possessões portuguezas d'Africa que existem no Museu de Lisboa. Jornal de Sciencias Mathematicas, Physicas e Naturaes, Segunda Série, IV (14): 65-104, estampas I e II. Felix de Brito Capello del..

(3) GUEDES, Maria Estela (1992) - Memórias do lagarto cabo-verdiano. "O Escritor", nova série, nº 1, [1992] p. 83-104.