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..COLÓQUIO INTERNACIONAL "A CRIAÇÃO". CONVENTO DE S. DOMINGOS. LISBOA. 2001



  • DEUS NÃO É DESCARTÁVEL
    Maria Estela Guedes
     







Rosine Chandebois veio ao colóquio "A Criação" por causa da sua obra “Para acabar com o Darwinismo”, publicada em Portugal pelo Instituto Piaget. A autora estriba-se na embriologia para acusar o darwinismo e o próprio Darwin de burla intelectual. Decerto Eduardo Crespo, segundo embriologista participante neste colóquio, a contradisse, mas infelizmente não temos terceiro embriologista, de geração seguinte, para o contradizer a ele, de modo a revelar algo que todos sabemos: o valor do conhecimento científico não é absoluto, varia no tempo de acordo com as suas mais recentes aquisições, sobretudo instrumentais.

Com outros fundamentos, decorrentes da análise de textos de História Natural, situando-me por isso na área das Letras, eu cheguei à mesma conclusão. Mas não acuso só o darwinismo, sim o naturalismo em geral e também as religiões. Aproveitando o facto de estarmos num convento dominicano, deixarei aqui a minha especial acusação à Igreja Católica Apostólica Romana de co-autoria e cumplicidade na fraude.

As minhas provas são os próprios objectos de um discurso científico aberrante, que se configura como paródia. Paródias são obras em geral colectivas, que mimetizam outras e cujo objectivo é a sátira. Inúmeros exemplos de paródias científicas foram editados em papel e no ciberespaço, para os conhecerem bastará consultarem a minha bibliografia. São centenas ou milhares de provas de que a ciência usa exemplares falsificados de produtos dos Três Reinos, que garante resultarem de selecção natural. 

Se alguém quiser coligir mais provas, poderá experimentar o "gaio método", criado por Nuno Marques Peiriço e por mim. Consiste em reunir o máximo possível de textos sobre a mesma espécie ou espécime e compará-los para detectar divergências sobre aspectos que não deviam sofrer variantes de texto para texto nem de autor para autor - anatomia da espécie, localização geográfica e características do seu habitat, etc.. Espécies da fauna ou flora provenientes de localidades que não existem, como os ilhéus das Rolhas e das Relas, em São Tomé, são falsas. Espécies e exemplares provenientes de uma montanha cuja altitude varia drasticamente são falsos. Qualquer estudo baseado em exemplares implicados em paródias resulta em fraude, voluntária ou involuntária, e isto afecta não só as Ciências Naturais e os seus públicos, afecta ainda quem faz História delas. As minhas provas são apenas exemplos dos barretes que consegui não enfiar em matéria de cultura geral, resta o vasto campo das especialidades em que decerto os tenho enfiado até ao umbigo sem me poder defender deles. 

A última paródia que encontrei está neste momento nas "Alquimias" (1) e visa o darwinismo. Conta a história da criação de uma nova espécie para a ciência, Macacus lasiotus. Gray, o autor, diz criá-la a partir de um único exemplar vivo, sem cauda. Afirma que a falta de cauda se devia sem dúvida a um acidente natural. Sclater, mais tarde, vem participar o falecimento do macaco, importante porque permitira um estudo anatómico. Apresenta por isso provas anatómicas de que, tal como Gray dissera, a perda de cauda era acidental. A análise das vértebras punha de parte a hipótese de mutilação. Em suma, ninguém tinha cortado o rabo ao macaco, pois essa tal nova espécie, Macacus lasiotus, era apenas um espécime de Macacus rhesus with its tail cut off, ou seja, com o rabo cortado. Este é um exemplo de paródia que envolve um falso objecto científico, uma vez que cortaram o rabo a um espécime que ninguém tinha mutilado.

A ciência não somente usa exemplares falsificados como é ela mesma quem os falsifica. Repito para não haver equívocos: a ciência usa e fornece ao público falsas informações e falsos objectos científicos. O valor das provas que reuni não está sujeito a variabilidades no tempo, ao sabor de novas teorias ou novos instrumentos, ele é absoluto. As minhas interpretações das paródias são falíveis como quaisquer outras, porém as provas científicas patentes nos documentos que desde pelo menos 1998 venho a divulgar têm valor fixo: são falsas e nem um milagre de Nossa Senhora de Fátima poderá torná-las verdadeiras.

É falso, por exemplo, que o Pico de Clarence tenha 1500 ou 10 mil metros de altitude, é falso que a ilha de Fernando Pó fique situada no Atlântico Sul, é falso que a ilha Rodrigues não exista, é falso que os dromedários façam parte da fauna da foz do Cunene, é falso que em Portugal exista um naturalista chamado J. Newton, é falso que o Rio Quija se localize em Angola, é falso que exista um Rio Matosinhos em Portugal, é falso que Balthasar Osório (Osório) tenha dito que a espécie Gobio fluviatilis  fora encontrada em Matosinhos (Almaça), é falso que no Alfeite, na região do Porto e em Chaves exista a maior parte das espécies de répteis e anfíbios da fauna portuguesa (in Crespo), são falsas milhares de informações como estas que pululam nos textos dos naturalistas. Por consequência, espécies envolvidas num discurso que contém estas aberrações são espécies falsas ou falsificadas. É falso ainda que Francisco Newton, explorador português do século XIX, tenha coligido centenas de espécimes antes de ter nascido e durante a sua infância, por isso todos os exemplares com data anterior a cerca de 1881 que lhe são atribuídos são exemplares falsificados, falsas sendo assim as espécies que representam. Contra esta falsidade, não há qualquer espécie de argumentos, o seu valor como falsidade é imutável. Podemos é discutir infinitamente os porquês e as consequências da sua circulação e do silêncio que sobre tanta paródia paira. É fácil à ciência demonstrar que são erros o que digo ser uma paródia, basta apresentar as erratas. Quando muito raramente aparecem, pior a emenda que o soneto.

De que modo são as religiões cúmplices e co-autoras da paródia? Muitos naturalistas são sacerdotes, por isso estão envolvidos neste contexto, muito amplo no tempo e no espaço geográfico. Do século XVIII para cá, o seu número terá vindo a diminuir, mas não é raro encontrá-los. É o caso de René de Naurois, dos cientistas que melhor conhecem a ornitologia das ilhas do Golfo da Guiné e de Cabo Verde. Os textos nos quais compilei bom número de falsidades vieram da sua bibliografia. O mesmo poderia aliás dizer do herpetologista Eduardo Crespo, em cuja bibliografia vem grande parte das falsidades que encontrei sobre répteis e anfíbios. Padre René de Naurois sabe assim muito mais do que eu, e de muito mais longa data, e pelo mesmo motivo o mesmo posso declarar de Eduardo Crespo. Como é hábito, ele poderá ser desautorizado pelos seus colegas mais novos, tal como os mais novos virão daqui a vinte anos a ser desqualificados pelos seguintes.  Em seu abono direi assim algo que pertence a outra História: além de sacerdote católico, Padre Naurois, que conheço pessoalmente, e com quem trabalhei, foi condecorado por Charles de Gaulle por actos de heroísmo cometidos no curso da Segunda Grande Guerra. Não é um insignificante. 

O mínimo de que o posso acusar é de silêncio, e por conseguinte de cumplicidade. De co-autoria acuso sacerdotes que já morreram, envolvidos nos casos que geram as falsidades sobre a fauna das ilhas do Golfo da Guiné: Padre Sanz e Padre Coll. Em abono de Padre Coll, direi que era um dos directores da Sociedade Geográfica de Madrid. A geografia está adstrita à mineralogia, à botânica e à zoologia, quanto à distribuição geográfica dos produtos naturais. Por isso é nos boletins das sociedades de Geografia que encontramos bom número de textos sobre flora e fauna. Padre Sanz é o autor de um dos mirabolantes relatos da ascensão ao Pico de Clarence realizado por Francisco Newton, segundo Padre Coll. É ele ou um dos seus colegas da Missão Católica do Sagrado Coração de Maria, sediada em Santa Isabel (Malabo), em Fernando Pó (Bioko), o autor de um outro relato segundo o qual existiriam hipopótamos no Lago Loreto. A questão de existirem ou não hipopótamos num lago de altitude, numa ilha vulcânica, pertence à esfera da zoogeografia. É qualquer coisa da mesma ordem de eu não saber, sendo licenciada pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, que "Os Lusíadas" não são uma novela de Bernardim Ribeiro.

Padre Duparquet e Padre Manuel Maria Antunes, missionários espiritanos, são cúmplices e co-autores do falso currículo atribuído a Francisco Newton, quanto às colheitas de plantas em Angola. Padre Brenha, conhecido sobretudo como arqueólogo, é o responsável por a região de Chaves ser riquíssima em variedade de espécies de répteis e anfíbios, parte das quais o herpetologista Eduardo Crespo, a despeito de esforços que certamente desenvolveu nesse sentido, ainda não conseguiu encontrar nas brenhas de Chaves. Note-se: não digo que elas lá não estejam, digo que ainda não foram redescobertas. 

A principal co-autoria e cumplicidade dos membros do clero vem porém de outro lado: a Igreja sabe, desde pelo menos a encíclica Humanum genus, de Leão XIII, que o naturalismo é uma doutrina que exclui o sobrenatural, ao pôr como princípios os de que tudo quanto existe é natural e explicável pela razão. Os objectos de discurso de uma doutrina destas não deviam ter passado da ciência para o público como factos verdadeiros, e a Igreja contribuiu para que tivessem passado. O darwinismo age como se Deus não existisse, quando Deus não é descartável pela humanidade que actualmente habita a Terra. Só com outra humanidade, dotada de outro cérebro, pelo qual nunca tenha passado a suspeita da existência de um Deus, é possível trabalhar em ciência sobre o princípio de que o universo é composto exclusivamente de matéria compreensível pelo Homem. 

A nossa humanidade assenta nas estruturas culturais de um edifício ao divino. Deus é um referente em qualquer cultura, não podemos descartar-nos dele. Essa humanidade que não existe, com outra cultura, pela qual nunca tenha passado a sombra de Deus, poderá afirmar como facto, ainda que seja falso, que tudo o que existe é natural e explicável pela ciência. Mas nós não somos essa humanidade, por isso, antes de afirmarmos que a Criação se deve ao acaso, e que é o acaso que está por detrás da selecção natural, teremos de provar que Deus não existe. Como é que a ciência sabe que a selecção é natural e não sobrenatural ou humana?

O darwinismo apresenta duas hipóteses de origem das espécies, ambas por selecção: a natural é aquela em que não houve interferência do homem. A artificial é aquela em que houve selecção humana, caso dos pombos, dos burros, dos cavalos, dos canários e de milhares de espécies animais e vegetais. O que diz respeito à agricultura e à piscicultura, por exemplo, é fruto de selecção humana. Ninguém tem dúvidas nestes casos, mas quando se trata de borboletas, por suposição, a ciência trata as espécies como se fossem fruto de selecção natural, sem o poder provar. As espécies ditas oriundas de selecção natural tanto podem ser fruto de selecção humana como divina. Podem algumas delas vir a cair sob a alçada do humano, mas as que não cairem estão sob a alçada do metafísico, uma vez que, não sendo Deus descartável, natural e sobrenatural pertencem à mesma esfera do não verificável. Os cientistas presentes neste colóquio dirão que o natural, em ciência, é uma convenção. Mas em cima da convenção constroem-se edifícios ficcionais sem categoria literária, que passam para o público como se fossem factos reais e verificados, e é esta a maior burla intelectual.

A Igreja melhor do que eu poderia dizer à ciência que Deus não é descartável, mas colabora, através do sacerdócio que faz ciência, no “vamos fazer de conta que Deus não existe”. Eu não estou a dizer que Deus existe, não sei se existe. Também não estou a dizer que Deus não existe, continuo a não saber. Declaro, isso sim, que o epíteto natural colado à expressão História Natural, selecção natural, etc., é uma fraude intelectual enquanto não for demonstrado que Deus não existe. Infelizmente para os naturalistas, Deus é um tropeço no seu caminho de que não se podem descartar. Tudo o que diz respeito ao naturalismo assenta neste natural, isto é, neste “vamos fazer de conta”. Ora o fazer de conta, todos o sabem, é um princípio da ficção.

 Remato de forma tão desataviada e directa como principiei. Se me perguntarem agora por que motivos a ciência, com a co-autoria de sacerdotes, levou a cabo tão vasta paródia, direi que há vários. Mas apresento uma só conclusão do meu trabalho de vários anos a este religioso auditório de crentes e ateus, deixando claro que a conclusão é uma exegese e não um facto: a ciência levou a cabo esta burla para obrigar a Igreja Católica Apostólica e Romana a ajoelhar diante do filho do macaco.

(1) As "Alquimias" foram absorvidas pelo TriploV, bem como os livros : "Carbonários - Operação Salamandra" e "Francisco Newton - Cartas da Nova Atlântida". Também pode ler os textos de "Ciência e subversão". Nos do Zoo Ilógico encontra mais paródias de Gray e Sclater sobre macacos. A do Macacus rhesus é comentada em "Dar ao público a imagem científica" - Zoo Ilógico.  


.........BIBLIOGRAFIA

ALMAÇA, Carlos (1995) - Fish species and varieties introduced into Portuguese inland waters. Publicações avulsas do Museu Bocage, Lisboa. História / Pisces. 

CRESPO, E.G. (1971) - Anfíbios de Portugal continental das colecções do Museu Bocage. Arquivos do Museu Bocage, III (8): 203-304.

CRESPO, E.G. (1972) - Répteis de Portugal continental das colecções do Museu Bocage. Arquivos do Museu Bocage, III (17): 447-612. 

GUEDES, Maria Estela & PEIRIÇO, Nuno Marques (1998) -  Carbonários - Operação Salamandra: Chioglossa lusitanica Bocage, 1864. Contraponto, Palmela. Reedição aumentada com documentos inéditos, online no TriploV e em http://hybris.no.sapo.pt/

GUEDES, Maria Estela & PEIRIÇO, Nuno Marques (1998) - Ficções da Ciência. Comunicação apresentada à Reunión Científica Internacional Ciencia y sanidad en España y America Latina, RIHECQB. Facultad de Farmacia, Universidad Complutense de Madrid, 14 de Julho. Boca do Inferno, Cascais, 3: 187-191.

GUEDES, Maria Estela (1999) - Do Dodó à Fénix - Parte III: Transmutação no discurso científico. Comunicação apresentada ao Colóquio Discursos e Práticas Alquímicas. CICTSUL. Biblioteca D. Dinis, Odivelas, 16-17 de Julho de 1999. Actas em publicação.  

GUEDES, Maria Estela (1999) - O naturalista como criador - o enigma da mensagem na garrafa. Atalaia, Lisboa, (5): 31-42.  

GUEDES, Maria Estela (1999) - Natura ou Cultura? Exposição CulturaNatura, Museu Nacional de História Natural, Lisboa. Folheto oferecido ao público, relativo ao bloco de cobre.

GUEDES, Maria Estela & PEIRIÇO, Nuno Marques Peiriço (2000) - O gaio método. Actas do Congresso Luso-Brasileiro "Portugal-Brasil: Memórias e Imaginários", Grupo de Trabalho do Ministério da Educação para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses. Vol. II:  489-50.

GUEDES, Maria Estela (2000) - A ciência como arma de guerra. Asclepio, Vol. LII (1). Madrid. 

GUEDES, Maria Estela (2000) - Francisco Newton: Cartas da Nova Atlântida. Com a colaboração de Andrés Galera, Alexandra Escudeiro e Nuno Marques Peiriço. Online no TriploV e em http://hybris.no.sapo.pt/

GUEDES, Maria Estela (2000) - Martinho de Mello e Castro e as riquezas naturais. Comunicação apresentada ao (II) Colóquio Internacional Discursos e Práticas Alquímicas. CICTSUL, Biblioteca D. Dinis, Odivelas, Junho de 2000. E muita documentação sobre a "Pedra de Cobre", online no TriploV.

GUEDES, Maria Estela (2001) - Dar ao público a imagem científica. Online em www.triplov.com (Zoo Ilógico).

OSORIO, Balthazar (1896) - Peixes de Mattosinhos (Terceiro appendice ao catalogo dos peixes de Portugal de Felix Capello). Jornal de Sciencias Mathematicas, Physicas e Naturaes, Segunda Série, IV (15): 131-159.

GUEDES, Maria Estela (2002) - Ciência e Subversão - Baltasar Osório. Online em www.triplov.com .


Publicado na revista Atalaia-Intermundos, CICTSUL, Lisboa, 2003