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CARTAS DE ROSA DE CARVALHO :
HÁ UMA CIÊNCIA MAÇÓNICA? (fim)
Maria Estela Guedes


CARTAS DE ROSA DE CARVALHO
CARTA 1

Das águias águias [1] existem só duas: a terceira morreu morreu [2] em virtude de um beijo que lhe deu a maior.

Uma destas será da grandeza de um peru piru [3]. Toda preta, menos a cabeça, que é um pouco castanha. É muito nova ainda, e tanto que conserva penugem. Não sei, e creio mesmo que é difícil conhecer, atendendo à idade, se é ou não a águia real. É de aspecto soberbo e qualquer fisionomista leria muito no olhar dela.

A outra será águia, mas das espécies muito vulgares. Parece destes milhafres grandes. Não se pode porém saber o que é porque apenas começam a aparecer as penas.

E é o que posso dizer e afirmar debaixo do juramento do meu grau, se necessário for.

Júlio A. Henriques

Espinheiro: 20 de Julho 63

Quando chegou a Braga a carta do Manuel Paulino, estava lá o nosso Júlio Henriques; foi ver as águias e escreveu esta carta.

Recebi ontem a sua carta de 16, já sabia da oferta do Rei ao nosso museu e até vi uma censura de um periódico a esta oferta não ter sido feita também ao museu de Coimbra, acusando o Ministro [4] por não ter lembrado isto ao Rei; são coisas deste mundo. Estimo as melhoras do seu adjunto. Quanto à dúvida que tem nos ninhos de Tordoveia [5] não é sem fundamento, pois pertencem ambos à Tordoveia viscivorus - Nºs 19 e 20, por isso queira deitar à rua aquele que está quase partido pelo meio. Quanto aos ninhos de Chamariz e da Tutinegra atricapila [6] Nºs 11 e 23 ou da outra Tutinegra dos Valados Nº 8 pode o meu amigo estar certo de que estão certos, são ninhos muito conhecidos e muito frequentes, eu não me podia enganar com eles; os de Chamariz diferem muito uns dos outros, e pode dizer-se que um indivíduo não pode pôr ovos parecidos em tudo com os de outro, e o mesmo se pode dizer da atricapila. Se quiser mando-lhe outros ninhos das mesmas espécies. A única colecção que faço para mim é de ninhos, porém ainda me faltam alguns dos que mandei.

Escrevi um bilhete quando mandei a Coruja, em que lhe dizia que um filho de um exMinistro já defunto, por apelido Campello tem uns moluscos aquáticos muito grandes parecidos com as anodontas e apanhados no rio Ceira próximo a Coimbra, isto foi-me dito por pessoa fidedigna que os viu. Este Campello tem uma sofrível colecção de moluscos, e é empregado numa secretaria.

Aº do C.

J.M. Rosa de Carvalho

(Arquivo histórico do Museu Bocage, CN/C-12)

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[1] A palavra está duplicada, escrita também por cima. A carta também é dupla.

[2] A palavra está duplicada, escrita também por cima.

[3] A palavra está duplicada: "piru" ou “perú” em cima e "peru" em baixo. No original, estas três palavras dispõem-se em duplo triângulo.

[4] Talvez o próprio Bocage, que fez carreira política, e foi por várias vezes ministro.

[5] Turdus viscivorus

[6] Sylvia atricapilla - toutinegra-de-barrete-preto.

CARTA 2

Quinta do Espinheiro 30 de Julho 64.

Meu caro amigo -

Donde viria o dizer-se que me estou ocupando com a botânica? Lembro-me que disse ao Dr. Cortez que havia de ir a certo pinhal colher uma planta para o C. Machado; seria daqui? A sua carta de 10 encheu-me de satisfação por ver que o meu amigo não se mortificou com o que lhe disse do nosso museu, e mortificado fui eu por supor que o seu nervoso se irritara com isto. Nessa carta chamou a minha atenção para os répteis; quanto às salamandras aquáticas nada tenho visto de novo; quanto aos Sapos há aqui uma espécie rara que ainda não mandei, e aparece em Maio; é menor do que o Sapo ordinário e tem o ventre cor-de-laranja [1]. Lagartixas há uma espécie de que apenas vi dois indivíduos há anos, parece-me ser a que os franceses chamam des souches [2] que não significa Lagart. dos estúpidos, porque então seria minha, mas sim dos troncos ou raízes das árvores.

Fui outra vez à Geria e tive notícia de 3 Garcenhos [3] que meia hora antes da minha chegada lá tinham andado, sei agora que eles estão ocultos durante o dia ou parte dele, e é por isso difícil vê-los. As muitas doenças que por ali grassam nesta quadra tiram-me a vontade de lá voltar brevemente, mas conto obter algum este ano. Não é a nicticorax [4] nem a stelaris [5], é a espécie não descrita.

Quem me dera cá Setembro para ver o meu amigo e mostrar-lhe algumas aves que hei-de então matar no campo de Coimbra. Estou jurado, mas com esperança de largar a maçada no dia 5 ou 6. Não fiquei hoje jurado e por isso fui ver o C. Machado que se lhe recomenda, disse-me que o António de Carvalho voltara há pouco daí.

Lá vai o nosso Júlio Henriques e o Manuel Paulino, parece-me que o primeiro não volta. Tinha esperança de obter alguns animais de Mangualde - Putorius fetidus [6] e congéneres etc.. Em Agosto aparece aqui uma Petina anthus arboreus? [7] ela parte em Setembro o nome vulgar Sombria, porque procura a sombras das árvores.

Tenho 3 cobras muito bem conservadas, e até ver o meu amigo, hei-de obter mais répteis.

Vi na Geria um arv. Musignani [8] sobre um salgueiro, o amphib. [9] não trepa; achei duas ninhadas dos tais Musignani debaixo da terra mas em pequena profundidade; o amphy. cria nos juncos sobre a água. Logo todos os ratos de água que lhe tenho mandado são o Musignani e não o amphy.. Estou quase persuadido de que o rato grande da Geria é também o Musignani.

Pode ser que o entusiasmo me leve, em Outubro e Novembro, a dormir pelo campo do Mondego, nas povoações já se sabe, armando às diversas espécies de ratos que por lá devem aparecer. Os divertimentos de Sintra [10] farão com que o meu amigo não me escreva tão cedo.

J.M.R. de Carvalho

(Arquivo histórico do Museu Bocage, CN/C-13)

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[1] Bombina bombina (=Bombinator igneus) - sapo de ventre cor de fogo. Não está catalogado para a fauna da Europa ocidental e só existe, que se saiba, em parte da meridional.

[2] Lacerta agilis - não é uma lagartixa, sim um lagarto. A espécie não está representada ainda em Portugal.

[3] Ixobrychus minutus - garcenho.

[4] Ciconiformes. Nycticorax nycticorx (L.) - goraz.

[5] Ciconiformes. Botaurus stellaris (L.) - abetouro comum.

[6] foetidus. Mamífero. É Mustela putorius, o toirão.

[7] Passeriformes - Anthus arboreus. Petinha.

[8] Arvicola musiniani=Arvicola sapidus - rato-de-água. Rosa escreve como Bocage, na Noticia ácerca dos arvicolas de Portugal : primeiro nome com minúscula e abreviado - "arv. incertus", por exemplo.

[9] Arvicola amphibius=Arvicola sapidus - rato-de-água.

[10] Bocage tinha casa em Sintra.

CARTA 3

Quinta do Espinheiro, 15 de Agosto 64.

O nosso Dr. Cortez disse-me que havia de intrigar com o meu amigo e por isso lhe falou em botânica; é um grande maroto. Há poucos dias foi daqui para aí um primo dele que é ou tem sido empregado no brigue Ligeira que anda na carreira de Lisboa para o Pará; escrevi por ele ao meu amigo ou a pessoa que faz as suas vezes no museu, com o fim de lho mostrarem, e dar-lhe instruções para ele também concorrer para o aumento das colecções; basta que ele leve para aí os animais que morrerem no brigue para se arranjar alguma coisa boa; morreram 2 macaquitos pretos do tamanho de ratos, com uma malha amarela sobre as costas, talvez ainda lá não tenha esta espécie, que não se perderia se o rapaz os tivesse aberto e deitado em aguardente. Consta-me agora que talvez ele mude de navio e vá para a carreira da Índia a Lisboa.

Não tenho dúvida em crer que o sapo de ventre cor de laranja é o Bombinator igneus [10]; o espinhaço dele é mais alto do que as ilhargas do corpo e pode dizer-se que elas formam 2 planos inclinados.

Apanhei e tenho em aguardente 2 sapinhos de que o meu amigo não fala na sua lista [10], são mais pequenos do que o obstréticans [3] os olhos são escuros com um risco branco perpendicular, têm pequenas pintas vermelhas dos lados da cabeça, pescoço, e corpo, parece-me que é o campanisona [4], o meu amigo pode ouvi-los cantar em Sintra depois de Trindades - tó-tó-toró -. Não conheço pelos nomes científicos as cobras - Periops hippocrepis [5] e Coelopeltis insignitus [6]. Tenho 4 em aguardente; infelizmente 3 são a mesma espécie, e esta ainda lha não mandei; é castanha mais clara do que a scalaris [7] e não tem as riscas sobre o dorso, tem pintas pretas, brancas no centro, talvez seja variedade da scalaris, a outra cobra tem o pescoço esverdeado e destas há muitas variedades com o ventre branco, com ele preto, pintado, e com as tintas diversamente distribuídas. Desta última já o meu amigo lá tem. Desejo mandar-lhe a cobra escura do mato com o ventre deformado. Pedi ao Dr. Pedro que mandasse apanhar víboras, porém o homem não é bicheiro, e por isso não me deu esperanças. Um homem muito sério diz-me que há cobras grandes venenosas nas proximidades do Porto e que também há lá víboras que são pequenas e raras.

Se o Garcenho da Geria não é o Botaurus ruffus Brisson, então é coisa nova, não tenho à mão o Brisson nem o Garcenho. Parece-me que o tempo mais próprio para ir ao Buçaco é o do mês de Setembro, agora está lá muito calor apesar de se dizer que o calor é ali agradável, há poucos dias foi lá o Manso e outros conhecidos, e não puderam parar nem na fonte fria!! Calor como tem estado por aqui, não há memória de o ter havido assim! Em breve não teremos água para beber! Pobres dos moluscos aquáticos que não respiram também por pulmões.

Esqueci-me de arranjar em Maio as lampreias novitas em que o meu amigo me falou quando aqui veio; declaro-lhe que sou pouco esquecido em objectos zoológicos, e por isso me tem custado o tal esquecimento. Mandei encomendar Anodontas das poças do Mondego e espero boa porção; desejo-as da Geria porém não tenho a quem as encomende. Quando lá fui a última vez apanhei uma numa pequena vala confluente da da Geria, e parece-me que tem uma pequenita diferença das do Mondego, talvez me engane; o meu amigo a verá em Setembro, e não perderá as passadas se aqui vier. A colecção zoológica é talvez a mais difícil de todas as colecções, quem faz colecção de plantas vai a onde as há e apanha-as porque logo as vê; mas quem procura animais que a maior parte são nocturnos, não os vê e fica não sabendo se existem naquela localidade. Demais no caso de saber que eles ali vivem resta apanhá-los, porém como? Não temos armadilhas próprias, temos portanto de as inventar, e ao menos de apropriar as já inventadas. Que de paciência é necessária para isto?! Que tempo se gasta inutilmente! Inventadas as armadilhas, temos de experimentar as iscas para chamar os animais, depois de tantos trabalhos ficamos satisfeitos quando aparece alguma espécie que ainda não temos, e sentimos uma satisfação imensa quando achamos uma espécie não descrita. Porém há homens que julgam que um Museu é um palheiro, que para se encher basta sair de casa, mandar apanhar a palha e deitá-la para dentro dele; não sabem conhecer o valor que tem um objecto novo, os trabalhos científicos duma bem feita classificação; materiais que são olham só para o material e não querem saber o quanto custa arranjar aquele material, perguntarão se no museu há muitos animais além dos que havia no ano passado, se poucos ainda, se poucos ainda que de grande valor, dizem que este ano nada se fez em aumento do Museu. Aposto que o meu amigo tem por lá desta gentinha? Donde se conclui que a colecção zoológica no nosso Portugal tem espinhos, por ser julgada por juízes os mais ignorantes.

Desculpe-os o meu amigo e desculpe-me a grande maçada que acabo de lhe dar.

Rosa

Quando aqui vier fará favor de me trazer 2 aves estrangeiras e lindas para eu dar a quem teve grande trabalho de me arranjar 3 ratoeiras... (Das sobresselentes) [8]

P.S. Dão-me a certeza de se arranjar um Garcenho, o que já está preparado, macho ou fêmea, novo ou velho.

(Arquivo histórico do Museu Bocage, CN/C-14)

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[1] Discoglossidae. Bombinator igneus (Bombina bombina). Não se conhece ainda a sua existência em Portugal.

[2]  Bocage, Liste des mammifères et Reptiles observés en Portugal, 1863.

[3] Discoglossidae. Alytes obstetricans, o sapo parteiro.

[4] Rana campanisona=Alytes obstetricans.

[5] Coluber hippocrepis - cobra de ferradura.

[6] Malpolon monspessulanus monspessulanus  - cobra rateira.

[7] Elaphe scalaris - riscadinha.

[8] Escrito na margem superior da folha, voltada esta ao contrário.

CARTA 4

Quinta do Espinheiro, 1 de Novº 64.

Meu caro amigo

O autor da natureza sempre avaro em fazer nascer homens grandes, extraordinários, homens do século, foi pródigo nesta variedade em 1817, porque nasceu neste ano, e no dia de hoje, o grande José Maria Rosa de Carvalho, e no dia de amanhã o grande José Maria de Abreu [1]. O primeiro nasceu para extermínio de todo o bicho vivo, e o segundo para derramar até nos cantinhos de Portugal a muita instrução que talvez tenha. Faço