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CARTAS DE ROSA DE CARVALHO : HÁ UMA CIÊNCIA MAÇÓNICA? (1)
Maria Estela Guedes

Trabalho realizado no âmbito do projecto “Naturalismo e conhecimento da herpetologia insular” – Protocolo de Cooperação Luso-Espanhola, FCT (Fundação para a Ciência e Tecnologia, Ministério da Ciência e Educação, Lisboa) e CSIC (Consejo Superior de Investigaciones Científicas, Madrid)


RESUMO

Sim, há uma ciência maçónica - este enunciado não corresponde a uma tese, é resultado das muitas exegeses de textos de naturalistas, publicadas em livro, revistas e no TriploV (http://www.triplov.com). As cartas do naturalista Rosa de Carvalho para Barboza du Bocage são apenas mais um corpus a documentar a existência de uma linguagem cifrada no discurso científico, constituída por erros. Esta linguagem veicula informações sobre espécies cuja origem não se deve à selecção natural, sim à dos próprios cientistas, os quais deixam nos textos assinaturas maçónicas. As cartas pertencem ao Arquivo histórico do Museu Bocage (Museu Nacional de História Natural, Lisboa), cotas de CN/C-11 a CN/C-44,  e estão em linha no TriploV. Dado o seu interesse para a História da Zoologia, em especial Herpetologia – Rosa, a quem se deve a descoberta de Chioglossa lusitanica, também menciona a existência em Portugal de Bombinator igneus, o sapo de ventre cor de fogo, ainda não catalogado para a nossa fauna, pelo menos enquanto tal (uma nova espécie para a fauna portuguesa, também da famíla Discoglossidae, foi descoberta há poucos anos no Paúl de Arzila, na região de Coimbra, explorada por ele) - seleccionámos algumas para ilustrar esta comunicação.


O PARADIGMA DO JARDIM DO ÉDEN

Rosa de Carvalho, um advogado, sabia o que os naturalistas actuais não sabem? Claro que sim, sabia o que tinha feito.

A Natureza não é monopólio da ciência, nem a História Natural única fonte de conhecimento sobre ela, donde há diversos saberes, mesmo no interior do mesmo campo científico. Porém, resta saber o que é a Natureza. Não está no meu horizonte actual fazer revelações sobre tal matéria. Não sendo iluminada, ignoro o que terá sido o Jardim do Éden, só conheço jardins botânicos e zoológicos globais. Limitar-me-ei assim, neste caso particular da correspondência de Rosa para Bocage, posterior à publicação de A Origem das Espécies (1858), a distinguir o natural do artificial, à luz das duas hipóteses de Darwin quanto à origem das espécies: a origem por selecção natural é aquela em que o homem não tomou parte; quanto à selecção artificial, basta chamar-se também selecção humana, para sabermos que a sua origem reside nas nossas práticas de introdução, domesticação, aclimatação, produção e apuramento de raças, etc.. Estas práticas são muito antigas, o primeiro registo delas que eu conheça vem consignado na Bíblia, é o episódio que narra a diligência de Noé para reconstituir a fauna terrestre após o Dilúvio, seleccionando artificialmente um casal de cada espécie.

Com fundamento na selecção natural, nenhuma ciência credível se pode constituir, nem maçónica nem outra, pela razão de que a origem das espécies por essa via não é testável – o mais que pode existir desse lado é uma crença, termo que a ciência ortodoxa substitui por convenção.

Não dizendo respeito à Natureza, por eu não saber o que ela é, nem às espécies oriundas de selecção natural, situadas num registo metafísico, segundo a visão popperiana, a ciência maçónica só pode referir-se então a espécies que resultam de selecção humana.

A ciência convencional sabe que em Portugal, por exemplo, a quase totalidade das espécies vegetais é fruto de selecção humana. Porém, esta declaração, sendo consentânea com os factos, carece de autoridade. Depois de anos a trabalhar estes assuntos como pessoa das Letras que comenta textos científicos e procura informar-se deles junto dos especialistas, nunca desse lado veio tal revelação, por isso não posso fornecer nenhum argumento escolástico em meu favor. A informação foi colhida no verbete “aclimação”, na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, volume I, pág. 273, onde se lê o seguinte: “A maior parte das plantas que crescem em Portugal são originárias de regiões muito diferentes e, ou foram introduzidas intencionalmente (a quase totalidade das plantas cultivadas) ou introduzidas acidentalmente. Muitas plantas que crescem actualmente no estado espontâneo ou subespontâneo foram introduzidas mesmo nos últimos séculos em virtude do aumento do tráfego internacional”.

A selecção humana pode implicar técnicas biológicas como a inseminação artificial, visando a criação de híbridos, mas basta a introdução, intencional ou acidental, em locais onde antes não existiam essas espécies, para ficar excluída a hipótese de selecção natural.

É conhecido que hoje se fabricam artificialmente minerais, reproduzindo os fenómenos naturais em laboratório, caso de pedras preciosas, o que não é novo; data pelo menos do século XVI o conhecimento desta possibilidade, e ainda a criação de híbridos vegetais e animais, como vem expresso nos textos de Francis Bacon, quer na “Nova Atlântida” quer nas Magnalia naturae... (1). Nada disto, porém, é levado em conta pela ciência ortodoxa, cujas convenções exigem fazer tábua rasa não só de toda a prática científica, como da acção do homem na Terra, anteriores a ela. Se a respeito da botânica e da mineralogia a informação é curta, a zoológica então é paupérrima, porque estas ciências trabalham dentro do Paradigma do Jardim do Éden, ou do natural, por oposição a outras, como a floricultura, a agricultura, a zootecnia, a pecuária, a piscicultura, a ostreicultura, etc.., cuja finalidade prática é a de produzirem melhores “espécies” por selecção artificial, trabalhando assim de acordo com o Paradigma de Noé.

Temos então que de um lado há ciências biológicas aplicadas, em que a enxertia, a inseminação e a selecção artificial constituem o seu domínio de actividade, e as que trabalham de acordo com uma teoria em que a transformação das espécies é tabu, por no seu paradigma subjazer a convenção do natural : as espécies que o homem não utiliza para fins práticos, seja na alimentação, indústria ou adorno, são tratadas como se fossem naturais.

Por todos os motivos, o Paradigma do Jardim do Éden é frágil, baseando-se apenas na convenção e na fé depositada na integridade dos colectores e naturalistas – convenciona-se que, além de serem naturais todas as espécies não úteis (porque todas as úteis sofreram intervenção humana), ninguém enviará gato por lebre para os museus, nem nas instituições científicas ninguém criará novas espécies a partir de produtos laboratoriais, para as deixar em liberdade nesta ou naquela região.

Gonçalo Sampaio, na Flora Portuguesa (2) e noutros catálogos botânicos, redige a quase totalidade dos nomes científicos das plantas em latim macarrónico, pondo acentos nas palavras. Essa é uma forma de prestar a mesma declaração que a Grande Enciclopédia, uma vez que o latim macarrónico também se chama escrita híbrida, e híbridos artificiais é o nome de alguns produtos da selecção das espécies de acordo com o Paradigma de Noé. Gonçalo Sampaio, reputado como das maiores autoridades portuguesas em Botânica, usou essa escrita exótica, segundo os colegas, para ensinar os leitores a bem pronunciarem o latim.

Como se nota, a minha hipótese paira no limbo entre natural e sobrenatural, por falta de argumentos de autoridade: não posso invocar a autoridade da Enciclopédia, porque ela a não tem, e não posso socorrer-me da autoridade que tem Gonçalo Sampaio, porque o botânico não afirmou que a quase totalidade do revestimento vegetal do nosso país é fruto de selecção humana, limitou-se a pôr acentos gráficos nas palavras em latim, para os leitores aprenderem a bem pronunciar nomes como Acácia mimósa, por suposição.

Gonçalo Sampaio é uma autoridade em Botânica. E quem terá redigido o verbete sobre aclimatação, na Enciclopédia? Não sei, mas esse tipo de declarações e o próprio assunto pertencem às ciências biológicas aplicadas – florestais, agrícolas, pecuárias, etc.. São ciências todas elas, mas com objectivos e pontos de vista diferentes: a Botânica e a Zoologia, ao convencionarem que todas as espécies são naturais (excepto as que pertencem à área das ciências aplicadas), têm por isso da natureza a imagem de um Jardim do Éden, antes do aparecimento de Adão e Eva. As ciências aplicadas são todas posteriores a Adão, Eva, Noé, e Apocalipse de S. João. As aplicadas vivem num mundo desde sempre transmutado pelo homem, e transmutado nos últimos séculos sobretudo pelas ciências e tecnologias em geral. Por isso a Enciclopédia pode falar abertamente, desde que não explicite quais as espécies introduzidas, para não incomodar os colegas do Jardim do Éden. E por isso Gonçalo Sampaio, quando precisa de catalogar milhares de espécies, em vez de as dar como resultado da acção de Noé sobre a flora terrestre, ensina os leitores a escrever latim com erros em todas as palavras.

É nesta faixa do discurso usado por naturalistas como Gonçalo Sampaio e Rosa de Carvalho, entre o segredo e a sua interpretação pela ciência ortodoxa ora como método de bom ensino de latim ora como erro, que todo o meu trabalho, à partida de História da Zoologia, e por força das circunstâncias desviado para a Crítica das ciências, se vem desenvolvendo. As cartas de Rosa de Carvalho nada lhe acrescentam de novo, representam apenas mais um corpus em que é exibicionista, quer em quantidade quer em qualidade, o uso da língua das gralhas, como fica patente nas notas que adicionei às cartas.

Se bem que use artifícios retóricos mais variados do que Gonçalo Sampaio, Rosa de Carvalho também só excepcionalmente escreve com correcção o nome latino das espécies. O mais expressivo dos artifícios é a hibridação linguística: o primeiro termo do binómio lineano é o nome vulgar, o outro a segunda metade do científico, como em “Tutinegra atricapila”, em vez de Sylvia atricapilla, ou como quando chama carapaus (épinoches, em francês) a uns peixes de água salobra em que há uma espécie chamada Spinachia (3).

Os naturalistas usam o erro como código secreto. Não se trata de pequenas gralhas, imputáveis ao errare humanum est, sim de erros colossais, como esses “Tutinegra atricapila”, a que os leigos não são sensíveis, por desconhecerem que a nomenclatura está regulamentada, constituindo um código digital – no código digital não pode haver erros. O “Código Internacional de Nomenclatura” é regularmente reeditado e traduzido em várias línguas e a sua matéria traz a chancela de instituições que detêm o currículo de todas as espécies críticas - a Sociedade Internacional de Nomenclatura Zoológica e de Nomenclatura Botânica. Através das publicações destas sociedades, é possível saber quais as espécies introduzidas ou seleccionadas pela ciência, independentemente do facto de os seus directores saberem ou não, serem ou não maçons. A máquina funciona de forma automática: de cada vez que alguém reclama alterações no nome de uma espécie, reúne-se um júri para avaliar não só a argumentação do requerente como a dos especialistas que queiram alegar pró e contra. Toda essa argumentação, que traz à tona a bibliografia fundamental da espécie, e até do grupo a que pertence, é publicada nos boletins dessas Sociedades.

Como as subversões nomenclaturais deixam os não especialistas insensíveis, dou um exemplo que nada tem a ver com ortografia, susceptível de arrasar no exame qualquer aluno da escola primária: Augusto Nobre, num mesmo artigo (4), situa Coimbra ora na região do Douro ora na Estremadura. Porquê, já o expliquei – porque a principal protecção a dispensar a híbridos artificiais e espécies introduzidas, segundo Bedriaga, é não revelar com clareza o lugar onde estão a ser objecto de experimentação e investigação científica (5).

Neste ponto da ortografia aproveito para fazer uma errata ao livro “Carbonários” (6), pois apesar de serem dois os autores a ler, a decifrar e a transcrever as cartas de Rosa, a ambos nos escapou o facto de só por uma vez ou duas ele escrever Chioglossa lusitanica correctamente, quando esse é o nome de uma espécie que até ao fim dos tempos ficará ligada a ele. Rosa escreve invariavelmente "Chyoglossa", entre outros atropelos, e nós escrevemos bem o que devia ter sido transcrito com erros.

O PARADIGMA DA ARCA DE NOÉ

Os textos resultantes de práticas de observação e experimentação em espécies que sofreram intervenção por parte da própria ciência não são expressos de acordo com o discurso científico normal, que se auto-proclama objectivo, e busca até na matemática o fundamento da sua exactidão, discurso que tem horror ao erro, o evita e usa erratas, quando não é intencional. Pelo contrário, é um discurso que recorre a processos de ocultação, próprios da alquimia, da religião, da poesia, dos serviços secretos ou de mensagens sob regimes políticos em que vigora a censura. Assim sendo, este discurso, além de provocar todos os efeitos emocionais do literário, selecciona leitores mesmo dentro da comunidade de especialistas. Falta só saber se é constituído por maçons o grupo que oculta a informação, para legitimarmos o epíteto de maçónica atribuído a esta ciência.

Rosa de Carvalho era maçon? Não só Rosa de Carvalho, dado como colaborador de O Conimbricense, jornal de Joaquim Martins de Carvalho, um carbonário, mas também Barboza du Bocage, destinatário das suas cartas, eram maçons. Bocage figura nos dicionários da maçonaria. Rosa, não, aliás Rosa é um desconhecido, excepto na literatura zoológica. A primeira carta que nos aparece na selecção feita para este artigo, dentro da carta de Rosa, é do botânico Júlio Henriques, que declara: “E é o que posso dizer e afirmar debaixo do juramento do meu grau, se necessário for”. Rosa, na carta 6, informa que, nesse dia, Paulino de Oliveira fora ao juramento.

Em que circunstâncias teriam dois professores da Universidade de Coimbra de prestar o juramento do seu grau? Na passagem do grau académico de assistente para o de professor auxiliar, e deste para o de catedrático? Só nos ritos de iniciação nos sucessivos graus da maçonaria tal discurso é inteligível. Mas que ordem maçónica é esta, em que pelos vistos existe fórmula de juramento diferente para cada grau? Ignoro. Da Carbonária sabe-se muito pouco, a organização era secreta em sentido estrito. Considerar carbonários estes homens é uma hipótese minha, mas que só consigo fundamentar na adequação dos factos à História da época em que viveram. De qualquer modo, as marcas patentes na literatura científica identificam a maçonaria em sentido lato, e isso é suficiente para o meu estudo.

As assinaturas maçónicas que tenho encontrado, ou que reconheço, nos textos que usam a língua das gralhas, são poucas mas abundam. Quase todos estão marcados com o número 3 e correlatos (um deles é o 666 do Apocalipse segundo S. João) ou sugestões de triângulo, como no original da carta de Júlio Henriques. Outra imagem do triângulo aparece na descrição anatómica dos animais, como faz Rosa com o sapo de ventre cor de fogo: “o espinhaço dele é mais alto do que as ilhargas do corpo e pode dizer-se que elas formam 2 planos inclinados.” (carta 3). Descreve-se o animal como se fosse uma obra de arquitectura, um templo com telhado de duas águas, portanto triangular. Outra marca maçónica frequente é a alusão a S. João, aliás implícito também no 666. Bombinator igneus é uma espécie transmitida deste modo como obra do homem. Na história do dodó (7) aparece situação idêntica: uma das suas descrições dá dele a imagem de um corpo cúbico. O cubo, ou pedra cúbica, é um dos símbolos do Templo.

Nas cartas de Rosa encontramos uma assinatura mais original do que estas, apesar de integrada na vulgaríssima categoria de erros geográficos: a serra de Ilhastro ou Ilhatro, que também aparece como “pedreira de Ilhatro” (cartas 4 e 8). De facto há na zona de Coimbra muitas pedreiras, e um dos topónimos identifica até a pedra ali extraída: Pedra de Ançã. Porém não descobri nenhuma serra de Ilhastro nos atlas nem nos dicionários corográficos, pelo que a designação “Pedreira” passa imediatamente a assinatura de maçon, ou pedreiro-livre. Ora a pedreira é o lugar da pedra bruta, quadraçal, a que tem de ser polida e aperfeiçoada no curso dos rituais de passagem de um grau a outro mais elevado. Localizar espécies numa pedreira equivale assim a informar que está a ser criada, é uma “espécie” acabada de introduzir, cujos caracteres ainda não se fixaram.

O lugar ideal para experimentações com híbridos são as ilhas, por causa do isolamento reprodutor. Mas o termo “ilha” já deixou de ter valor geográfico em biologia : qualquer cercado numa quinta, qualquer lugar de onde os animais não possam sair, defendido por barreiras naturais ou artificiais que impeçam outros animais de entrar, para evitar acasalamentos indesejados, é uma ilha. Na dupla Ilhastro/Ilhatro temos a luz (astro) a vir das das trevas (atro), símbolo da Obra Magna. Porém, em termos comezinhos, biológicos, o que Rosa está a dizer é que a Serra do Astro, ou Serra da Estrela, é uma dessas ilhas.

Outros artifícios de Rosa são o de sublinhar nomes vulgares e não usar itálico nos científicos, no híbrido de vulgar e científico usar o itálico só no científico, e escrever com minúscula o primeiro nome latino - a nomenclatura exige que só o nome da espécie se escreva em itálico, com maiúscula no primeiro nome. Parece que a escrita carbonária usava recursos estilísticos deste tipo.

Concluindo, ciência maçónica é quanto os maçons sabem acerca das suas próprias experiências de hibridação e introdução de espécies vegetais e animais, o que se enquadra de preferência na Genética e na Embriologia, e ciência não-maçónica é aquela que faz de conta que nunca o homem interferiu no seu objecto de estudo, o Jardim do Éden.